"Dante"
O sol já invadia a suíte, quando batidas na porta me despertaram. Eu tinha a sensação de ter sido atropelado por um veículo pesado. O Murilo entrou pronto para enfrentar o expediente na holding, mas parou no centro do quarto, olhando para a minha expressão exausta e para a Valentina, que estava sentada na beira da cama com os olhos inchados de chorar, fuzilando o advogado com o olhar.
- O clima aqui está mais pesado do que as reuniões do Conselho. - O Murilo comentou em tom baixo, a sua habitual ironia sendo contida ao notar a gravidade do meu semblante.
- Tivemos uma madrugada difícil, Murilo. - Eu respondi com a minha voz mais pausada e calma, tentando não alarmar mais ninguém. Olhei de soslaio para a bandeja com o meu café da manhã que a Valentina já havia colocado na mesinha de cabeceira. - Parece que o avanço... do problema... será mais rápido. Mas nós não podemos parar. O conselho de acionistas da holding está se movimentando nos bastidores e o Otto vai tentar usar qualquer fraqueza minha para atacar. Nós precisamos acelerar a auditoria.
A Valentina ficou tensa, cruzou os braços sobre o peito e encarou o Murilo com uma ferocidade cega.
- O Dante não vai pisar na holding hoje, Dornelles. Se ele quiser e conseguir trabalhar será daqui, do quarto, sob a minha vigilância. - Ela decretou com autoridade absoluta. - E se aqueles carniceiros do Otto ou da Aurélia tentarem armar qualquer reunião extraordinária para prejudicá-lo, eles vão ter que passar por cima de mim primeiro. Eu sou a dona desta casa e ninguém vai tocar no meu marido. Pra quem perguntar, o meu marido está vivendo as delícias da vida de casado, como diz a minha avó.
Olhei para a minha Encrenca, sentindo o meu pulso se estabilizar diante do espetáculo daquela mulher pronta para a guerra. Ela estava disposta a peitar o advogado, coitados dos outros que achavam que a minha piora física era o passaporte para o controle do império, eles não faziam a menor ideia de que o pior pesadelo deles acabava de despertar: a fúria protetora da Sra. Montenegro. Eu olhei para o Murilo com um sorriso convencido.
- Minha mulher decidiu, Dornelles. Não a irrite. - Eu avisei e me levantei devagar, puxando a Valentina e dando um beijo em sua testa. - Você é extraordinária, Encrenca!
- Senta e toma o seu café. - Ela passou os braços ao redor de mim e eu vi o olhar do Murilo avaliando a cena. Eu não estava nem aí, eu gostava do cuidado dela e do jeito que ela me tocava.
- Eu preciso de um banho, Encrenca.
- Tudo bem. - Ela se virou para o Murilo cheia de ordens. - Dornelles, ajuda o meu Chicletinho no banho enquanto eu troco a roupa de cama e busco um café pra você. Não deixa ele cair nesse banheiro!
- Fica tranquila, Valentina, eu dou conta de segurar o gigante aí. - O Murilo deu um sorriso confiante e tirou o paletó, observando a Valentina sair do quarto. - O que está acontecendo, Dante? - Ele perguntou assim que ela fechou a porta e me acompanhou até a porta do banheiro.
- Eu caí no banheiro de madrugada. Acordei com tremores, falta de ar... o quadro geral piorou e neste momento a minha cabeça parece um sino badalando. - Eu falei enquanto me despia.
- Você precisa falar com o médico. Mas eu perguntei o que está acontecendo entre você e a Valentina. - O Murilo perguntou firme.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Último Desejo: a dançarina e o bilionário terminal