"Otto"
Eu caminhei de um lado para o outro na sala principal, fingindo analisar gráficos no meu tablet, mas a minha atenção estava inteiramente voltada para a escadaria de mármore. O Dante não havia descido para tomar o café. Ele não havia pegado o sedã para ir à holding. E o advogado foi mandado para cima assim que chegou. O homem de ferro das Indústrias Montenegro, aquele arrogante que andava me ameaçando com uma auditoria e havia cortado o meu acesso às contas, estava fora de combate. Mas por quanto tempo? Eu sabia a resposta e precisava aproveitar a oportunidade.
A Aurélia estava sentada no sofá, tão ansiosa quanto eu, ou talvez mais. Ela olhou para os lados, certificando-se de que a governanta Marta ou qualquer outro funcionário estivesse longe, e me chamou com um sussurro ríspido.
- Otto! Venha aqui agora mesmo. - Ela ordenou, com o seu jeito autoritário de sempre. Me aproximei e me curvei na direção dela. - O que está acontecendo lá em cima? O Breno me disse que ouviu uma movimentação estranha na suíte do Dante no meio da madrugada. O Dante está piorando, não está?
Um sorriso cínico e vitorioso começou a se desenrolar nos meus lábios.
- Tudo indica que sim, Aurélia. - Eu respondi num fio de voz. - O silêncio daquele quarto me diz que algo está acontecendo. Os tremores, as náuseas, as tonturas... são os sintomas exatos que o Dr. Hércules nos garantiu que aconteceriam na fase avançada do glioma. Assim como os efeitos que esperávamos desde que isso começou.
A Aurélia soltou um suspiro audível, mas o pânico ainda nublava os olhos dela e ela me encarou cheia de dúvidas.
- Você acha que deu tempo suficiente para que os efeitos atingissem o ponto máximo? Mas e aquela pobretona, Otto? Aquela Valentina é um estorvo! Ela está de olho em tudo o que ele come. Já faz dias que que ele não toma o suco e você sabe...
- Eu sei, eu sei. Ela foi muito clara e a governanta cancelou mesmo as entregas do suco. - Eu tencionei o maxilar, sentindo uma pontada de irritação. - Aquela vadia deu um golpe de sorte. Ela está tentando ser muito eficiente, está tentando trancá-lo naquele quarto sob a sua guarda exclusiva para agir como a única dona do império. Tentando se fazer necessária. Nós precisamos acabar com esse casamento, Aurélia. Isso prejudica os nossos planos.
- E eu não sei?! - A Aurélia bufou. - Mas quem diria que o Dante teria uma amante e a colocaria dentro de casa. Logo ele que parecia viver em função daquela empresa.
- É, mas ele nos surpreendeu. E eu chequei tudo, o casamento é válido e se ele... Aurélia, nós precisamos agir rápido, precisamos tirar o controle da holding das mãos dele e precisamos acabar com esse casamento antes de concluirmos o nosso plano.
- Até porque, se continuar como está nós nunca vamos concluir o nosso plano, não é, Otto? - A Aurélia me encarou aborrecida.
- Ou podemos concluir e usar a suburbana como bode expiatório. - Uma ideia começava a surgir, mas eu precisaria agir com muito cuidado.

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