"Valentina"
Estar sentada na presidência das Indústrias Montenegro, usando um terno de grife e brincos de safira que valiam mais do que o meu estúdio de dança inteiro, parecia um delírio. Se bem que eu nem tinha mais um estúdio e naquele momento nem era isso que me preocupava.
O Dante e o Murilo passavam relatórios fiscais e planilhas contábeis na tela do tablet, discutindo os furos e as notas frias que o primo Otto vinha maquiando para desviar capital da holding. O Dante estava focado, exalando aquela sua seriedade e falando com o seu tom mais rebuscado. Era fascinante vê-lo em seu ambiente. A síncope da madrugada parecia ter sido apagada do corpo dele, as mãos não tremiam um milímetro sequer enquanto ele assinava as transições de capital. Era estranho como aquelas crises iam e vinham como ondas.
Mas a minha mente não conseguia focar em absolutamente nada por mais do que dois minutos. Eu fingia ler os dados, mas a minha conversa com o Dr. Hércules Medina ao telefone pela manhã martelava na minha cabeça como um eco torturante. Ele tinha hesitado, eu tinha certeza. Ele tinha limpado a garganta e falado com a pressa de um mentiroso pego no flagrante quando eu exigi alternativas. Aquela desconfiança era como uma coceira irritante que não pararia até ser coçada. O Dante estava conformado em morrer, mas eu não ia aceitar aquela sentença de morte sem lutar.
A ansiedade me apertou tanto o peito que precisei de ar. Fechei a pasta de couro e me levantei da cadeira, chamando a atenção dos dois engravatados.
- Montenegro, eu preciso descer até o saguão. Meu corpo precisa de movimento, eu não estou acostumada a ficar tanto tempo parada. - Eu comecei, forçando um tom de voz leve e descontraído para não alarmá-lo. - E eu quero ver como a Tati está se saindo lá embaixo na recepção do prédio.
O Dante abriu um sorriso de lado, se recostando na poltrona e me olhando daquele jeito, como se estivesse prometendo me devorar mais tarde.
- Está louca para ir fofocar com a amiga sobre como as noites com o seu marido são uma loucura? - Ele brincou.
- Literalmente! - Eu sorri para ele.
- Diz para a sua amiga subir, Encrenca. Eu ainda não a conheço.
- Vou te apresentar a minha amiga outro dia, como minha amiga e não como sua funcionária. - Eu respondi e ele riu.

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