"Dante"
O silêncio do meu escritório foi quebrado pelo toque estridente do meu celular em cima da mesa. Olhei para o visor e semicerrei os olhos ao ler o nome do Dr. Hércules Medina. O que ele queria? Deslizei o dedo pela tela e atendi a ligação, colocando no viva-voz enquanto girava a minha cadeira para olhar para o vale através da parede de vidro.
- Hércules? Aconteceu alguma coisa? - Eu perguntei, a voz saindo naquele tom frio e pausado de quem não dava a mínima importância para o médico.
- Dante… nós temos uma intercorrência séria. - A voz do neurocirurgião ecoou. Ultimamente quando ele falava comigo parecia sempre tenso, limpando a garganta como se estivesse nervoso, mas à medida que falava, parecia ganhar confiança. - A sua… a sua esposa, assim disse, uma tal de Valentina, ligou para o meu consultório particular logo cedo. Ela me colocou contra a parede, fez exigências sobre tratamentos e, Dante… ela me ameaçou com um processo judicial. Veja bem, Dante, eu sou um médico respeitado, experiente e com uma reputação. Não posso ser ameaçado pelo capricho de uma garota que provavelmente não sabe onde se enfiou. Aliás, como você se casou? Você sabe que não pode ter intimidade com uma mulher.
Antes que eu pudesse processar aquela informação ou repreender o Hércules por se dirigir à Valentina de forma tão desrespeitosa, o som das portas duplas se abrindo me fez girar a cadeira. A Valentina entrou na sala acompanhada do Murilo que havia acabado de sair. O semblante dela estava carregado com uma seriedade feroz.
- Hércules, primeira coisa, se refira a minha esposa com mais respeito. Para você não é "uma tal Valentina", é a Sra. Montenegro. Segundo, o que ela sabe não é da sua conta, mas não caia na ilusão de pensar que ela é uma dessas garotas que vivem de compras no shopping e não tem nada além do horário da manicure na cabeça. Ela não é mesmo! Terceiro, se ela te ameaçou com um processo, não foi em vão. Vai por mim, ela já me processou uma vez!
Eu desliguei a chamada na cara do Hércules, sem me preocupar com amenidades, simplesmente coloquei o dedo sobre a tela com um estalo seco, cravando as minhas pupilas na minha Encrenca. O que ela tinha aprontado?
- Me defendeu? Viu isso, Dornelles, meu maridinho me defendeu! - A Valentina sorriu para o Murilo.
- Não se gabe disso! Não gosto desse seu péssimo hábito de me omitir as suas negociações matinais, Valentina. - Eu comecei, a voz grave, ecoando pelo espaço. - O Hércules Medina acabou de me ligar porque está profundamente ofendido... ao que parece a Sra. Montenegro prometeu arrastá-lo para os tribunais logo cedo. O que você foi aprontar pelas minhas costas?
A Valentina engoliu em seco, trocando um olhar rápido com o Murilo, mas não recuou um milímetro. Ela caminhou até a mesa com passos firmes, apoiou as mãos na estrutura e me encarou cara a cara com aqueles olhos castanhos faiscando.
- Eu não fui aprontar pelas suas costas, Dante! Eu fui defender o que é meu! E você, Montenegro, é meu, está naquele contrato. - Ela disparou em alto e bom som, a sua reação possessiva destruiu a minha distância fria. - Dante, eu passei a madrugada inteira segurando o seu corpo trêmulo na cama de seda, sentindo o seu coração bater no limite da exaustão enquanto você vomitava na lixeira... e quer saber? Eu vou passar todas as noites que for preciso cuidando de você, não porque eu precise, mas porque eu quero! Porém, contudo, entretanto, todavia, eu não vou ficar sentada assistindo você aceitar a morte e o sofrimento desses sintomas com essa passividade irritante que você deseja.

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