"Dante"
Dez minutos depois, o Otto empurrou as portas da presidência com a sua habitual arrogância e fingido afeto familiar, mas parou no centro do escritório ao notar a atmosfera de velório. O Murilo trancou a porta atrás dele, encostando-se na parede com o seu sorriso mais cínico, enquanto a Valentina permanecia de braços cruzados ao meu lado, como a própria personificação de uma primeira-dama indomável.
Eu dei um soco violento na mesa, fazendo os tablets vibrarem, e me levantei. Com os meus um metro e noventa e cinco de altura, o Otto parecia ainda menor do que o seu um metro e setenta. Eu fuzilei o meu primo com o olhar e ele sabia que eu não estava para brincadeira.
- Que armadilha é essa, primo? O que a sua adorável esposa reclamou agora? - Ele sorriu cinicamente para a Valentina.
- Sente-se, Otto. - Eu decretei, a minha voz já deixava claro que aquela conversa não seria agradável e eu não toleraria gracinhas. - Nós não vamos esperar a Reunião Extraordinária do Conselho que você marcou para ajustarmos as contas. É, Otto, minha empresa, meu império, e eu sei tudo o que acontece aqui, inclusive sei da escuta que você colocou sob a minha mesa semanas atrás e só por isso eu poderia colocá-lo na rua. E antes que você pergunte como eu sei que foi você, eu vou te contar. Já ouviu falar de câmera escondida? Para você ver, eu não seria o empresário que sou se fosse enganado tão facilmente!
O Otto empalideceu por um milésimo de segundo e engoliu em seco, o maxilar travando de pânico, mas tentou recuperar a soberba dissimulada.
- Dante… eu só... primo, nós somos parentes, você anda passando mal, eu me preocupei que algo acontecesse. Eu coloquei a escuta aqui na sua sala, sim, mas porque eu estava preocupado com a sua saúde. Você costuma passar horas trancado aqui, eu temi que algo pudesse acontecer. Dante, você é meu primo, eu quero o melhor para você e para esta empresa que o meu tio construiu com tanto sacrifício... você não está bem... o Conselho precisa de estabilidade… por isso eu pedi pela reunião... para declarar o meu total apoio a você e... - Ele gaguejou, tentando recuar.
- Cala a porra da sua boca, encostado! Já falei para parar de agourar o meu marido. - A Valentina cortou o homem com a gentileza de um coice de mula, dando um passo à frente com os olhos faiscando. - Você é um aproveitador querendo vida boa! Você, a Aurélia, o Breno... bando de aproveitadores, loucos para cravarem as garras na carcaça do Dante. Só que a farra de vocês acabou. Se você chegar atrasado ou tentar maquiar mais uma única nota fiscal na holding, eu mesma te jogo no meio da rua na frente de todos esses engravatados! Convoco uma reunião geral da empresa lá no saguão do prédio, só para que todos vejam a sua bunda caída sendo chutada pelo salto doze da Senhora Dante Montenegro!
- Ah, eu adoraria ver essa cena! Você ouviu a minha esposa, Otto. - Eu finalizei, o meu orgulho pela ferocidade da Valentina atingindo o ápice. - Nós vamos começar ainda hoje uma auditoria fiscal rigorosa no seu departamento. Se eu encontrar um único centavo fora do lugar, você será demitido por justa causa e eu vou colocar o Murilo Dornelles para procurar uma brecha no testamento do meu pai que me permita autorizar a minha adorável esposa a chutar você da minha casa com o salto doze dela. Agora saia da minha sala.
O Otto nos encarou com o rosto queimando em chamas, totalmente humilhado, o ódio mortal que ele sentia estava escancarado. Ele arrastou a cadeira com violência e saiu batendo as portas duplas.
Eu respirei fundo, tentando acalmar a adrenalina disparada pela raiva. Me virei para o Murilo, que agora estava com os olhos fixos no celular.
- Dante, você tem mesmo câmeras escondidas neste escritório? - A Valentina me perguntou, estreitando os olhos para a porta com uma curiosidade genuína.
Eu olhei para a minha Encrenca e não consegui conter um sorriso totalmente vitorioso de canto.
- Claro que não, Valentina. Foi apenas o blefe de um excelente jogador de pôquer! - Eu respondi convencido. - O Otto é previsível e covarde. Diante da menor pressão ele se entregou. No entanto, o meu celular gravou esta conversa.
O Murilo Dornelles soltou uma risada abafada na ponta da mesa.
- Um blefe de gala! - O advogado debochou.
- Eu sou boa em strip-pôquer. - A Valentina declarou como se tivesse deixado escapar um pensamento do nada. O Murilo soltou uma gargalhada alta.
- Por que ela é assim? - Eu olhei para o Murilo que estava quase sem ar de tanto rir, enquanto a minha mente criava imagens da Valentina tirando a roupa.
- Por que você não falou sobre o médico, Chicletinho? - A Valentina me perguntou meio confusa.


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