"Dante"
O início da manhã no meu escritório da empresa exalava o habitual ritmo de guerra a que eu estava acostumado. Eu estava me sentindo muito bem, tinha dormido a noite inteira e, tirando um pouco de dor de cabeça que eu poderia gerenciar, até aquele momento eu estava sem sintomas, o que era muito bom.
O Murilo, a Valentina e eu estávamos passando os olhos sobre os relatórios e apertando o cerco da auditoria no departamento do meu primo Otto. A Valentina estava totalmente concentrada nos números, mordendo levemente a tampa da caneta de um jeito que não deveria parecer tão sexy. Eu já começava a ficar perigosamente viciado em observá-la e registrar seus trejeitos. Essa manhã ela estava cantarolando quando eu a surpreendi na cozinha preparando o meu café da manhã e ela cantarolou durante o café, irritando a Aurélia que tentou intimidá-la e recebeu as respostas ácidas da Valentina em ritmo musical. Eu tinha quase certeza que ela estava sob o efeito das oscilações de humor da estimulação hormonal da fertilização e eu estava achando absolutamente divertido.
O bipe eletrônico do interfone sobre a minha mesa cortou o silêncio da sala e me tirou da minha contemplação. Estendi a mão e atendi com a minha frieza habitual.
- Sim?
- Sr. Montenegro, há um Sr. Camargo na recepção do térreo que insiste em falar com o senhor. Os seguranças iam retirá-lo, mas ele insistiu que o senhor sabe quem ele é e ficaria furioso em saber que um familiar foi colocado para fora. - A secretária informou, o tom de voz formal disfarçando uma leve hesitação.
- Eu não conheço nenhum Sr. Camargo... - eu respondi prontamente, mas eu percebi a mudança de humor da Valentina ao ouvi-la estalar a língua e bufar de irritação, olhando para a tela do celular.
- Ele se identificou como tio da Sra. Montenegro. Ele pediu uma audiência de urgência para resolver o que ele chamou de "mal-entendidos". Devo solicitar aos seguranças que o retirem do prédio?
- Me dá só um minuto, Aline. - Eu me virei para a Valentina.
- É o Aroldo, Chicletinho. A Tati acabou de me avisar. - A Valentina estava claramente irritada. - Camargo é o sobrenome da minha mãe. Quando eu nasci ela queria um sobrenome curto para não dificultar a minha vida na escola, aí colocou só o sobrenome do meu pai. Agora roubar virou a porra de um "mal-entendido". Se ele veio aqui para me fazer desistir, ele pode voltar da recepção mesmo.
- Eu tenho um palpite diferente, Encrenca. Ele descobriu finalmente quem é o seu marido e vai tentar estreitar relações. - Eu falei para a Valentina. - Vamos recebê-lo, prometo que vai ser divertido.
Eu sorri e ergui as sobrancelhas para a Valentina, aguardando a sua palavra final.
- E se não for? - Ela resmungou chorosa.
- Prometo te compensar à noite? - Eu dei a ela o meu melhor sorriso e ela estreitou os olhos para mim como se não acreditasse. - Lembra do sorvete?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Último Desejo: a dançarina e o bilionário terminal