"Dante"
O Aroldo Camargo arregalou os olhos. Obviamente pensou que seria fácil demais entrar aqui e convencer a Valentina ou a mim de qualquer coisa. Mas ele se enganou, se em algum momento ele manipulou a minha Encrenca, foi unicamente porque ela estava sem saída com a avó, mas agora ela não precisava mais aceitar as canalhices dele.
- Sr. Montenegro, a Valentina é minha sobrinha. O sangue é um laço sagrado. Eu criei essa garota com tanto sacrifício, abri as portas da minha casa para tirá-la do desamparo quando os pais dela morreram… e agora receber um bloqueio de contas? Reabertura de um inventário? Acusações de fraude? É muito doloroso para mim. Além do mais, ela sequestrou a minha mãe e a está mantendo presa em algum lugar, impedindo que eu vá vê-la. Eu tenho certeza de que a minha sobrinha foi influenciada por algum advogado esperto.
- Agora o senhor está me ofendendo. - O Murilo se levantou e ajeitou a gravata. - Vamos esclarecer as coisas. Primeiro, eu sou o advogado da Sra. Montenegro. Eu verifiquei o processo de inventário dos pais dela e, acredite, eu não sou bom, eu sou o melhor, e se eu reabri esse caso, é porque eu tenho muito mais do que indícios das fraudes que o senhor cometeu. E quanto à adorável D. Isabel, fui eu quem reverteu a curatela para a Valentina e a Valentina tem todo o direito de manter parentes prejudiciais longe daquela senhora amabilíssima. A Valentina a está protegendo e acredite, ela está em um lugar excelente. Agora, se o senhor tem mais alguma dúvida ou reclamação, eu vou adorar encontrá-lo, com o seu advogado, no tribunal. Eu tenho certeza que o senhor já ouviu por aí que eu sou impiedoso na defesa dos meus clientes, então...
O Aroldo engoliu em seco, encarou o Murilo e depois me encarou, e continuou com a voz mansa, tentando nos convencer de que era um incompreendido.
- Eu sou o pai da Valentina por direito, já que a criei! Tenho certeza de que nós podemos nos entender, resolver isso numa boa, em família, sem envolver juízes ou essa baixeza de tribunais, doutor. Como diz o ditado, roupa suja se lava em casa.
- Ah, não, Sr. Camargo, eu lavo a roupa suja dos meus clientes na lavanderia do judiciário. Pode acreditar, serviço cinco estrelas e não fica nem uma manchinha. - O Murilo respondeu ironicamente.
- O senhor mencionou a palavra sacrifício, Sr. Camargo? - Eu perguntei, a minha voz saindo cortante como a lâmina de uma guilhotina. - Mencionou também que se considera o pai por direito da minha esposa? Esse é um lugar muito importante.
O Aroldo sorriu, achando que o seu teatro de reconciliação havia me fisgado.
- Exatamente, Sr. Montenegro! Eu sabia que um homem culto como o senhor entenderia. Eu passei anos lidando com as despesas dela, e agora que as minhas contas foram bloqueadas injustamente… eu estou em uma situação muito difícil enquanto a minha sobrinha, minha filha, está... desfrutando de muita tranquilidade. Sabe como é, família ajuda família, eu a ajudei tanto todos esses anos, seria natural que ela, agora que está bem de vida, esquecesse mesquinharias e até me retribuísse pela minha generosidade em acolhê-la. Eu quero apenas o bem da Valentina e da minha mãe, e…
Eu comecei a rir, o homem era mais cretino, mais canalha, do que imaginei.
- O seu show foi de uma cafonice deplorável, Sr. Camargo. - Eu cortei o homem com desdém e me levantei, fuzilando-o. - Como o Dr. Dornelles disse, ele verificou. Ele levantou cada falsificação que o senhor apresentou ao juiz. A sua situação não está boa. E quanto a minha esposa, infelizmente os pais já faleceram e ninguém toma o lugar deles no coração dela. Ela não tem nenhum vínculo com o senhor e a sua família, nenhum laço de afeto. E a D. Isabel não quer ver nenhum de vocês. Então, saia por aquela porta e se o senhor ousar pisar neste prédio ou ligar para a minha esposa novamente com o seu papo furado de laço de sangue, eu vou garantir que o seu próximo terno seja o uniforme de uma penitenciária estadual. Material para isso nós já temos, até porque as fraudes que você comete como despachante imobiliário são muito mal feitas. - Eu decretei, o tom de voz inabalável. - O senhor será escoltado para fora agora e não se esqueça, nunca mais procure a minha esposa.
O Aroldo levantou-se da cadeira com as pernas bambas, totalmente humilhado e apavorado, sendo escoltado pelo segurança para fora da presidência. Voltei a me sentar e olhei para o Murilo. Eu não queria nem imaginar o que a Valentina tinha aguentado daquele homem. Mas eu iria destruí-lo!

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