"Dante"
O silêncio que se instalou na sala de reuniões após os insultos desesperados do meu primo Otto foi cortado pela risada mansa, cínica e totalmente cortante da Valentina. Ela segurou a minha mão com uma firmeza que me deu a certeza de que ela saberia lidar com aquilo. Ela ergueu o queixo com aquela altivez que me deixava inteiramente hipnotizado e encarou o Otto.
- Que gentil, Otto, você se referir às minhas habilidades. - A Valentina começou sarcasticamente. - Mas deixa eu corrigir os seus equívocos. Sim, eu sou dançarina e tinha um estúdio de pole dance que foi fechado, não porque eu sou incompetente, mas porque as Indústrias Montenegro decidiram derrubar o prédio onde eu alugava o espaço do estúdio. Mas não se preocupe, daqui a pouco o meu estúdio será reaberto em uma estrutura ainda melhor. E para o seu desespero, primo - ela olhou bem para o Otto, usando um sarcasmo refinado ao chamá-lo de primo -, eu sou graduada em administração e negócios. Eu não sou apenas dançarina, eu também me preparei para manter o meu próprio estúdio funcionando. Eu criei um negócio, Otto, enquanto você recebia uma cadeira confortável nesta holding por pura caridade do meu falecido sogro. Não se preocupe, eu sei exatamente a diferença entre débito e crédito. E sei, principalmente, a diferença entre um executivo competente e um parasita incompetente que se acha esperto. E como eu sei que você não ia acreditar em mim... Dornelles, coloca o meu diploma na tela por favor.
Eu precisei de muito sangue frio para fingir uma cara de quem já sabia daquilo. Mas a verdade foi que a Valentina havia conseguido me surpreender mais uma vez. Como eu nunca soube que ela era formada? O Murilo soltou um pigarro audível para disfarçar o riso e colocou na tela a imagem de um diploma. E não era um diploma qualquer, era um diploma da melhor faculdade da região.
Os dez acionistas do Conselho se entreolharam, balançando as cabeças em aprovação silenciosa diante da comprovada capacidade da Sra. Montenegro. O Otto empalideceu, seus ombros caíram e ele agora só tinha uma carta na manga: a minha saúde.
- O Conselho foi convocado aqui hoje com caráter de urgência máxima por um motivo de força maior! Os acionistas precisam saber a verdade que você está tentando esconder atrás desse casamento de fachada com essa suburbana! Senhores diretores, o Dante Montenegro não tem capacidade civil para gerenciar esta holding! Ele está sofrendo de crises físicas graves, tonturas violentas e síncopes! Ele tem um tumor cerebral inoperável na cabeça, um glioma agressivo e terminal, e vai morrer em menos de um ano! O Conselho precisa exigir a cadeira da presidência por invalidez médica agora mesmo antes que o meu primo, por estar com as suas faculdades mentais comprometidas pela doença, cometa erros que nos levem à falência!
A sala de reunião congelou no mesmo segundo, o silêncio voltando ainda mais frio e tenso. Olhei de soslaio para a Valentina, que permanecia inabalável, com um sorrisinho confiante. O Otto era totalmente previsível e havia seguido exatamente o roteiro previsto.
Eu me levantei devagar. Dominando a reunião e exalando a força vital renovada e a mente cristalina que eu voltei a sentir essa manhã.
- Chega de insolência, Otto! - Eu decretei, a minha voz saindo naquele tom grave. - Você é apenas um funcionário aqui, convocou esta reunião pelas minhas costas porque pensou que tinha um trunfo para me ludibriar. Você convocou esta pauta de urgência alegando motivos de força maior da minha saúde e uma possível incapacidade de minha parte. Pois bem. Eu o desafio, agora mesmo, diante de todos os acionistas, a provar cada linha do que você está dizendo. Apresente as suas evidências, porque imagino que você as tenha.

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