"Valentina"
Depois de visitar a minha avó, o Dante e eu compartilhamos o silêncio no banco de trás do carro, mas havia algo no ar que eu não sabia explicar. Talvez fosse só porque de forma muito natural ele pegou a minha mão e entrelaçou os nossos dedos, mantendo assim sobre a minha perna. O tremor havia desaparecido, os dedos longos dele estavam firmes e aquele gesto simples disparava uma corrente elétrica no meu corpo que me fazia arrepiar. Mesmo que ele não falasse, mesmo que olhasse pela janela, o roçar do polegar dele no dorso da minha mão me dizia que ele estava comigo.
Eu ainda estava esperando a minha surpresa, estava ansiosa para chegar em casa e ver o que ele ia aprontar. Mas quando o motorista dobrou a esquina e entrou nas ruas charmosas do lado norte da cidade em vez de ir em direção à mansão, eu estreitei os olhos.
- Montenegro, para onde nós estamos indo? - Eu cobrei curiosa.
O Dante voltou a cabeça devagar na minha direção com um sorriso.
- A Sra. Montenegro me cobrou uma compensação por ter se saído muito bem hoje na reunião. - Ele respondeu com o seu jeito pomposo. - E ela já me avisou que não aceita calotes. Nós chegamos.
O carro parou suavemente. Olhei pela janela e o meu coração deu uma cambalhota dentro do peito. Era o galpão industrial que havíamos visitado no mês anterior e eu escolhi para montar o meu estúdio. Mas agora, a fachada rústica estava impecável, e acima do imenso portal de ferro, brilhava um letreiro discreto, elegante e em neon com o meu nome, "Valentina Montenegro".
O Dante abriu a porta do carro, mandou os seguranças esperarem do lado de fora. Ele segurou a minha mão, me guiando para dentro do espaço escuro. Quando ele estendeu o braço e acendeu os interruptores de uma vez só, eu achei que estava no céu.
O meu queixo caiu e eu arregalei os olhos em choque completo, as lágrimas de alegria e emoção travaram a minha garganta no mesmo segundo. O galpão inacabado havia sido transformado em um estúdio de dança de altíssimo padrão. Tudo conforme eu tinha conversado com o arquiteto, como eu sonhava que o meu estúdio fosse. O piso de madeira de demolição reluzia sob as luzes, espelhos monumentais cobriam as paredes de tijolos, os vestiários ao fundo tinham acabamento de hotel cinco estrelas e, bem no centro do salão principal, sob uma iluminação em neon escurecida em tons de roxo que exalava pura sensualidade, erguiam-se as barras de pole dance de aço polido. O meu sonho estava pronto. Reconstruído do zero pela força do dinheiro e do cuidado daquele homem.
Eu dei um grito de puro prazer, me virei inteiramente para ele, deixando a empolgação extravasar, e o abracei pelo pescoço com força, colando o meu corpo no dele, chorando de gratidão.
- Dante… é lindo… é muito mais do que eu imaginei... é muito mais do que você precisava fazer. - Eu sussurrei com a voz embargada. - Obrigada por me devolver o meu lugar.
O Dante não respondeu com palavras imediatas. Ele apenas desfez o abraço devagar, caminhou até uma das poltronas de couro que estava bem em frente a barra central, e se sentou, cruzando as pernas e ajeitando o paletó. Seus olhos brilhavam de orgulho, afinal a empresa dele tinha feito aquilo, mas algo mais enquanto ele me encarava na penumbra roxa.
- O que foi? - Eu perguntei meio confusa.

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