"Dante"
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, se virou devagar no meu abraço, escondendo o rosto no meu peito nu e segurando o tecido da minha calça de moletom com os dedos trêmulos. Quando ela começou a falar, a sua voz saiu baixa, num tom melancólico.
- Eu fui humilhada, Dante. Uma humilhação pública e cruel que quase acabou comigo na adolescência. E isso não é exagero adolescente. - Ela confessou, e o meu peito se apertou. - Eu tinha uns quatorze anos. Teve uma dessas atividades obrigatórias na escola, do tipo que você tem que se apresentar para a escola inteira. Cada turma tinha que apresentar um número e a minha turma inventou uma apresentação de dança de rua. E como era obrigatório... Enfim, no meio de todos os alunos de todas as turmas, eu errei um passo no meio do palco, caí de mau jeito e todo mundo começou a rir de mim. Apontavam o dedo, me chamavam de gorda, de desengonçada… eu ouvi coisas horríveis. O pior foi que pelo resto do ano eu fui a piada da escola. Eles me chamavam de "Tina baleia", "Valengorda", coisas do gênero. Mas o pior de tudo mesmo foi o garoto que eu andava meio interessada, ele começou a me chamar de "sereia", e a idiota aqui pensou que era elogio.
- E não era? - Eu fiquei meio confuso.
- Não quando dizem que a sua metade peixe é a baleia! - Ela respondeu irritada.
- Isso foi horrível! Eu lamento que a escola tenha sido difícil para você.
- Você nem imagina o estrago que isso faz na vida de uma adolescente. Depois da apresentação eu voltei para casa chorando tanto que achei que ia sufocar. Foi a Vó Isabel que me deu colo, limpou o meu rosto e me proibiu de desistir de dançar.
- Que sorte a minha! - Eu falei com sinceridade. - E o que você fez?
- Como eu não tinha dinheiro para pagar uma academia de dança tradicional, comecei a assistir a vídeos na internet e a tentar reproduzir os movimentos acrobáticos trancada no meu quartinho. - A Valentina continuou, e o tom de voz dela me deu um soco no estômago. - Sabe, Dante… por ser criada como um fardo naquela casa, ouvindo todo dia que eu deveria ser grata pela caridade que eu recebia, por eles me darem um teto e um prato de comida, eu achava que precisava me encolher o tempo todo. Eu tinha a certeza de que ocupava um espaço no mundo que não merecia, que eu era um estorvo. Eu me escondia em moletons três vezes maiores que o meu tamanho para ninguém notar o meu corpo. Calçava tênis velhos e andava na ponta dos pés para não fazer barulho pelos corredores. Meu cabelo vivia preso num coque apertado para não ser visto e eu não usava uma gota de maquiagem para tentar ser invisível. Eu queria sumir. Eu sentia que ocupava um espaço no mundo que não era meu.
Eu engoli em seco e apertei os meus braços ao redor da cintura dela, a puxando ainda mais para o meu calor, sentindo uma fúria assassina contra aquela família que a fez sofrer tanto. Ouvir que a minha Encrenca, aquela mulher monumental, já quis se diminuir para caber no mundo de alguém era inaceitável. Ninguém deveria se sentir assim.


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