"Dante"
A manhã seguinte não trouxe só um novo dia, mas uma nova determinação. Antes do dia amanhecer eu já estava no meu escritório de casa, vestindo um terno cinza sob medida, focado, determinado e com a mente operando em sua máxima lucidez. Eu não sentia mais a névoa de antes envolvendo o meu cérebro, nem o cansaço sem motivo, nem o tremor. Os enjôos e as tonturas também haviam desaparecido como num passe de mágica. Eu estava tão intrigado com o desaparecimento dos sintomas que eu estava até começando a pensar em um milagre da nutrição promovida pela Valentina.
Eu deixei a Valentina dormindo profundamente no andar de cima, exausta do bombardeio hormonal da fertilização e do impacto emocional de ter desabafado sobre o seu passado traumático. Lembrar do choro dela no meu peito e do sussurro de que não podia simplesmente me deixar ir embora fez o meu instinto protetor vir à superfície.
A porta do escritório se abriu e o Murilo entrou, segurando a sua pasta de couro com uma seriedade rara. Ele trancou a porta atrás de si e se sentou na cadeira à minha frente.
- Muito cedo para você me tirar da cama. - Ele resmungou.
- Bom dia para você também. - Eu sorri para ele e me recostei para observá-lo. O Murilo de mau humor parecia um gato velho que evitava socializar.
- Notícias do Conselho? - Eu perguntei.
- A essa hora, Dante? São seis da manhã! - Ele bufou. - E sim, já recebi umas três ligações. O Conselho ainda está digerindo o massacre de ontem. E... o Otto passou a noite trancado na holding tentando justificar o sumiço daquelas notas fiscais para os auditores. Ele está isolado. Mas eu tenho certeza de que não foi para isso que você me chamou aqui tão cedo.
Apoiei os cotovelos na madeira, entrelaçando os dedos longos, e fixei os meus olhos no meu amigo. Eu tinha certeza de que ele ia gostar do que ia ouvir.
- Eu te chamei porque preciso de ajuda para traçar um estratégia secreta, Murilo. E nem a minha Encrenca pode saber. - Eu contei.
- Sua Encrenca? - O Murilo estreitou os olhos e deu um meio sorriso. - A coisa ficou séria, hein?!
- Muito séria, Murilo. A Valentina... ela... ela me encanta! Ela é forte, é determinada, destemida, resiliente... ela é única.
- É, a Tininha é mesmo uma pessoa admirável. - O Murilo sorriu.
- Vai continuar chamando a minha esposa de Tininha?
- Com certeza, Sr. Ciumento! - Ele cruzou os braços e me encarou com a diversão estampada no rosto.
- Atrevido! - Eu resmunguei, era tudo o que ele queria, me provocar. - Eu a vi dançar. - Eu confessei e ele se curvou em minha direção.

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