"Dante"
O Murilo soltou uma risada abafada na ponta da mesa. Conviver com a Valentina estava me transformando em uma pessoa de sorriso fácil, bastava ela olhar para mim e lá estava eu sorrindo. Eu fechei a porta e parei bem na frente da minha Encrenca, segurando o seu queixo e depositando um beijo nos seus lábios que foi um pouco mais que um selinho. A boca dela tinha gosto de morango, por causa do gloss labial que ela usava.
- O expediente das Indústrias Montenegro não aceita atrasos, Sra. Montenegro. E eu acho que o seu figurino não é muito apropriado. - Eu respondi perto do ouvido dela, a minha respiração quente roçando a sua pele e a fazendo engolir em seco. Eu gostava do jeito que ela reagia a mim.
- E desde quando eu ligo para o que é apropriado, Chicletinho? - Ela me perguntou com aquele ar de deboche, passando os braços pelo meu pescoço. Eu ri, e me esquecendo completamente que nós tínhamos um voyeur na sala eu deixei as minhas mãos descerem pelo corpo dela até pararem nas suas nádegas, roçando as pontas dos dedos na pele logo abaixo da bainha do short.
- É, você não liga. Mas acho que vai ser bastante problemático demitir cinquenta por cento dos funcionários, talvez mais, por terem cobiçado a minha esposa. - Eu brinquei. - O seu treinamento prático como chefe de gabinete continua hoje. Nós vamos à holding formalizar o fechamento da auditoria contra o Otto.
- É, demitir metade do pessoal não é uma boa campanha com o Conselho. Deixa comigo, Chicletinho. Nós ainda temos tempo. - Ela abriu um sorriso enorme de alegria pura.
Eu dei mais um beijo rápido nela e olhei para a minha esposa sentindo o meu coração bater em um ritmo de absoluta alegria e esperança. Ela estava fazendo mais do que me proteger, ela estava me devolvendo um propósito. Mas um limpar de garganta no canto da sala me fez lembrar do nosso observador.
- Vocês estão... namorando? - O Murilo perguntou com a curiosidade natural de quem conhecia a verdade e pela primeira vez eu vi a Encrenca sem saber o que dizer. Aquilo me divertiu.
- O que você diz, encrenca? Estamos namorando? - Eu perguntei com um sorriso de lado e ela estava muda, com os olhos confusos.
As coisas entre nós foram acontecendo tão naturalmente que nenhum de nós percebeu quando dividir a cama deixou de ser um contrato e se tornou um relacionamento. Nós passávamos praticamente todo o tempo juntos e quando ela não estava por perto eu sentia a sua falta. Mas depois da noite passada, algo tinha mudado completamente e não foi só a minha decisão de procurar um tratamento para a minha doença. Eu tinha finalmente me rendido por completo a Valentina.
- Eu quero namorar com você. - Eu falei, tocando o lábio inferior dela com o polegar. - Eu quero poder te beijar e te tocar e não é para convencer ninguém de nada, é porque eu gosto de beijar você. Namora comigo, Encrenca? Não tem nenhuma cláusula no contrato que proíba isso.
- Dornelles, dá pra mudar a cláusula que fala "sem contato físico" para "o Dante não pode gozar"? - Ela perguntou, fazendo o Murilo e eu explodirmos em gargalhada.

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