"Dante"
O silêncio que se instalou no nosso quarto assim que entramos me incomodou, talvez porque fosse diferente de todo o barulho e as risadas do dia, ou talvez porque a Valentina não fosse o tipo de pessoa silenciosa. Assim que entramos, ela foi direto para o banheiro, sem nenhuma gracinha ou indireta, nem mesmo um beijo como tantos que ela me deu ao longo do sábado.
Eu estava sentado na beirada da cama, vestindo apenas a minha bermuda, esperando a Valentina sair do banho. Eu sentia uma clareza tão grande da minha mente, e sentia como se os meus sentidos estivessem melhores, mais aguçados. Talvez eu pudesse ir até a porta do banheiro e provocar a Encrenca. Eu gostava de vê-la bravinha. Eu nem pensei mais, me levantei e fui até lá.
Eu estava prestes a falar uma besteira qualquer, mas no exato momento o meu peito se apertou com um incômodo quando o som da água do chuveiro foi cortado por um ruído abafado. Eram soluços. Soluços altos e carregados de uma dor profunda. A minha Encrenca estava chorando.
- Valentina! - Eu chamei com carinho, mas ela não respondeu. - Valentina, o que está acontecendo?
- Nada, Dante. Eu já vou sair. - A tentativa dela de esconder o choro de mim falhou miseravelmente com a voz saindo anasalada.
- Valentina, abre a porta. - Eu pedi.
- Dante, eu estou tomando banho. - Ela respondeu, mas eu sentia que ela não estava bem.
- Valentina, eu vou arrombar a porta. - Eu apenas avisei um segundo antes de fazer.
Eu não fiquei batendo ou esperando que ela decidisse sair ou me deixar entrar. Eu tomei impulso e arrombei a porta. O que eu vi quando entrei foi como um soco no estômago. A Valentina estava ainda de biquíni, sentada no piso do box, com a cabeça apoiada nos joelhos dobrados, enquanto a água caía sobre ela, chorando, parecendo exausta.
Naquele momento eu só pensei em abraçá-la. Eu caminhei depressa até ela e me abaixei no piso molhado sem me importar com a água que instantaneamente me ensopou, eu passei os meus braços ao redor dela e a puxei com firmeza contra o meu peito, prendendo-a em um abraço carinhoso e protetor. Eu queria tirar dela tudo o que a estava fazendo sofrer, mas eu não tinha ideia do que era.
- Encrenca… meu amor, fala comigo. - Eu sussurrei com a minha voz mais amorosa, acariciando as costas molhadas dela. - Não se esconda de mim. Eu estou aqui. Divida isso comigo.
Ela tentou me empurrar com as mãos trêmulas, o rosto vermelho e os olhos brilhando em um misto de humilhação e vergonha.

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