"Aurélia"
Eu passei o dia no clube, não ia ficar naquela casa, vendo a gentalha invadir a minha mansão! Eu encontrei o Otto lá. Ele tinha armado um plano perfeito, levar a prima da dançarina vulgar para acabar com a alegria da gentalha. Não tinha como dar errado, eles teriam que engolir a garota porque ela estava com o Otto. Mas deu errado! Quando o Otto voltou para o clube, mais rápido do que deveria, ele estava furioso. Aquela gentalha fez um escândalo e mandou o segurança escorraçar a própria prima! Eu estava chocada com a falta de civilidade e mais ainda pelo Dante permitir aquilo. Era uma ofensa! O Otto morava na casa, tinha direito a levar os amigos que quisesse.
Eu voltei para casa nervosa. Eu ia dar um basta na farra da dançarina vulgar. Eu ia exigir que o Dante respeitasse aquela casa, respeitasse os nossos direitos e que tirasse aquela qualquer do meu teto! Eu marchei pelo corredor do segundo andar em direção ao quarto dele, sentindo o meu sangue ferver em chamas de puro ódio. Minhas mãos tremiam, fechadas em punhos, com uma fúria descontrolada. Onde já se viu, colocar um convidado para fora... eu estava cega de raiva. Aquela casa, que por direito era minha afinal eu tinha me casado com o falecido idiota, deveria ser o meu império, mas não, o Dante resolveu transformá-la em um cortiço de periferia por causa da dançarina barata.
A Valentina Torres havia cruzado todos os limites da decência. Não bastava ter colocado uma música ensurdecedora para se esfregar seminua em um cano de aço bem no meio do meu hall de entrada! Não, mas tudo o que ela já tinha feito já deixava claro que ela sempre conseguiria fazer algo ainda pior. Agora ela estava ditando quem entrava ou não na minha casa! E o Dante, o meu insolente enteado, apenas assistia a tudo com um sorriso arrogante, validando a baixaria daquela cachorra estúpida.
Eu parei diante das portas duplas da suíte dele, erguendo o queixo. Eu ia esmurrar aquela porta, a colocaria abaixo se fosse preciso, mas eu ia exigir que o Dante colocasse a sua dançarina pornográfica na coleira, ou eu mesma acionaria o departamento jurídico ainda hoje para acelerar o processo de interdição civil por invalidez dele e conseguiria a anulação desse casamento absurdo.
Eu ergui a mão, mas antes que eu pudesse tocar na madeira, eu congelei de choque. O isolamento acústico daquela suíte era de altíssima qualidade, uma engenharia impecável que a holding havia instalou porque o Dante queria preservar a sua privacidade, era o que ele dizia. Mas a casa estava imersa no mais profundo silêncio e eu ouvi um som abafado vindo de dentro. O que será que estava acontecendo? Será que eles estavam brigando? Eu colei o meu ouvido na porta e me concentrei para ouvir, o som que atravessou a porta me fez perder o chão. Eram gemidos. Gemidos agudos, manhosos e de uma luxúria escandalosa. Eles estavam...? Não!
A voz da Valentina chegava ao meu ouvido abafada, chamando o nome do Dante com... nem dava para dizer! E misturada à voz dela, eu ouvi o tom grave do meu enteado quebrando a sua habitual polidez com coisas indizíveis. Aquilo não podia estar acontecendo!
O suor frio do pânico brotou instantaneamente na minha testa. Eu senti um nó de pavor na minha garganta, o meu coração batendo desgovernado. Eles realmente estavam juntos. Não era encenação. E pior... eles estavam fazendo... aquilo! O Dante violou as recomendações médicas. Isso era um verdadeiro desastre!
E o pior de tudo, o pânico que fez as minhas pernas ficarem bambas: se aquela dançarina exótica engravidasse do Dante antes de conseguirmos interditá-lo, nós estávamos acabados! Seria impossível lutar contra um herdeiro e nós perderíamos tudo o que era nosso por direito.
Eu recuei dois passos cambaleando pelo corredor, o pavor de perder tudo, de não conseguir interditar aquele estorvo do Dante estava me paralisando. Eu dei as costas e saí correndo como uma louca pelos corredores. Eu precisava falar com o Otto, nós precisávamos fazer alguma coisa.
Eu não bati na porta do quarto do Otto. Simplesmente girei a maçaneta e empurrei, invadindo o aposento com as narinas dilatadas e o peito arfando de desespero e por causa da corrida. O Otto deu um pulo da cama onde estava refestelado com o controle remoto da TV nas mãos, usando apenas uma cueca.
- Mas que porra é essa, Aurélia? Ficou maluca? - O Otto esbravejou, mas logo mudou de postura ao ver o meu descontrole e ficou preocupado. - O que aconteceu? É alguma coisa sobre a auditoria?
- Nós estamos fritos, Otto! O nosso plano está completamente ameaçado! - Eu sibilei histérica. - É muito pior que a auditoria, seu idiota! É a dançarina! Eu acabo de vir da porta da suíte deles. Eles estão na cama, Otto!

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