"Dante"
A Valentina estava aborrecida, e mesmo assim era a coisinha mais linda do mundo, com aquele nariz arrebitado e os olhos faiscando. Ela estava pronta para comprar outra briga.
- Eu não preciso contratar pessoal, Montenegro. Somos a Tati e eu, é assim que funciona. Talvez depois, mas...
- Encrenca, você viu o tamanho daquele lugar? Quantas coisas você pode fazer lá? Além do mais, você está prestes a ficar grávida, em algum momento vai precisar ficar quieta. E ainda tem as coisas aqui na empresa, você precisa estar por aqui uma parte do dia. E... a parte mais importante, você precisa ter tempo para o seu marido! - Eu declarei e ela estalou a língua.
- Eu só queria o meu estúdio... - Ela resmungou.
- Não quer o marido? - Eu a puxei pela cintura e falei no seu ouvido. - E o que ele pode fazer por você... no nosso quarto? - Os olhos dela brilharam.
- Isso não tem nada a ver com o estúdio, Montenegro!
- Valentina, quando você entrou por aquela porta, a sua vida mudou para sempre. Eu pensei que você já tivesse se dado conta disso. - Eu olhei bem para ela. Ela fechou os olhos e respirou fundo antes de falar.
- Tá bom! Mas eu quero gente da minha confiança. Gente que entenda o que eu faço. Não quero samambaias de terninho no meu estúdio, nem gente que não entenda que os corpos são diferentes e ninguém é obrigado a viver num padrão. - Ela saiu do meu abraço, se sentou na cadeira dela e cruzou os braços, fazendo um biquinho.
Eu soltei uma risada alta, uma risada rouca e que ecoou pelas paredes do escritório, fazendo o Murilo balançar a cabeça com total divertimento do outro lado da mesa.
- O critério de seleção de pessoal é inteiramente seu, Valentina. - Eu respondi. - Mas você perdeu a Tati. - Eu declarei e ela me olhou chocada. - Você vai precisar dela aqui. Ela se mostrou muito importante, ela será seus olhos e ouvidos, saberá o que acontece nas suas costas e vai te contar. Bom, por enquanto para mim. - Eu sorri. - Você já percebeu como as coisas são aqui, precisa dela aqui. Você precisa de gente de confiança aqui também.
- Pra isso eu tenho o Dornelles! - Ela declarou e foi a vez do Murilo rir.
- Ao seu dispor, mas as pessoas não fofocam comigo como fofocam com a Tati. - O Murilo advertiu.
- É, você tem razão. - Ela concordou um tanto a contra gosto.
- Ótimo! O estúdio está pronto e você já tem todas as autorizações. Eu já providenciei as alterações na sua empresa. Defina a data da inauguração e contrate quem você quiser. Você também já tem uma conta com fundos suficientes para administrar o seu negócio. Posso te passar os detalhes quando você quiser. - O Murilo explicou e ela me olhou confusa.
- Fundos? - Ela perguntou.
- Dinheiro, Valentina, para você não ter dificuldades. Seu estúdio vai ser um sucesso, mas você precisa de dinheiro para recomeçar.
- Isso não estava no contrato. - Ela me lembrou.
- Acho que nós dois nunca respeitamos muito aquele contrato, Encrenca. Especialmente depois de sábado a noite.


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