Helena Narrando...
Ligo o chuveiro e deixo a água escorrer pelo meu corpo como se isso fosse o bastante pra aliviar o peso que carrego nos ombros. Já são dois dias sem dormir direito. Meu corpo tá exausto, minha mente mais ainda. Mas não tem como descansar quando a gente ouve a própria mãe gemer de dor no quarto ao lado. Quando a gente fecha os olhos e sente medo de não ouvi-la mais.
Medo real.
Medo de que, em algum momento da madrugada, ela pare de respirar... e eu nem perceba.
Me chamo Helena. Tenho vinte e um anos. E essa é, sem dúvida, a fase mais difícil da minha vida.
Minha mãe sempre foi minha base, minha fortaleza, minha inspiração. Uma mulher que enfrentou a vida com coragem, mesmo quando ela foi dura demais. Criou uma filha sozinha, limpando chão de empresas que não a viam. A mais recente delas — e a maior — foi a V-Tech Global, o império da tecnologia e inovação na América Latina. Uma empresa gigante, onde cada andar parece saído de um filme futurista, onde robôs circulam pelo saguão e drones entregam correspondência. Um lugar que dita tendências no mercado de inteligência artificial.
E onde o dono, Lorenzo Vasconcellos, um bilionário arrogante e inacessível, reina do alto da sua torre de vidro.
Foi lá que minha mãe trabalhou por cinco anos. Até que a doença apareceu.
Ela começou a sentir dores, uma fraqueza estranha, e a perder peso muito rápido. A gente achou que era estresse, mas os exames revelaram outra coisa. Um câncer agressivo.
Ela tentou continuar, tentou fingir que estava tudo bem... até o corpo dela não permitir mais.
E foi aí que eu larguei tudo.
Faltava tão pouco pra me formar em ciências exatas. Eu era a melhor da turma, bolsista, elogiada pelos professores. Eu amava aquilo. Sempre fui apaixonada por números, por análises, por montar estratégias. Sempre sonhei em ter minha própria empresa, ou quem sabe, ocupar um cargo de liderança em uma grande corporação.
Mas quando vi minha mãe definhar, quando as contas começaram a se acumular, quando os remédios passaram a ser mais importantes do que qualquer diploma... eu soube o que tinha que fazer.
Assumi o lugar dela na faxina.
Hoje, sou eu quem limpa os corredores da V-Tech Global. Uma loira de olhos azuis, pele branca e uniforme cinza, andando de cabeça baixa entre robôs e CEOs. Sou invisível para todos ali. E talvez isso seja o melhor.
Finalizo meu banho. Enxugo o corpo com rapidez e saio do banheiro. Ainda são cinco e meia da manhã. Puxo o cabelo num coque frouxo, coloco o uniforme, passo um perfume e volto para o banheiro, escovar meus dentes. A casa tá em silêncio, exceto pelos suspiros baixinhos vindos do quarto dela.
Pego minhas coisas, e vou até lá. Abro a porta devagar. A luz do corredor ilumina o rosto dela. Tão pálido, tão diferente da mulher cheia de energia que eu cresci admirando. Ela tá deitada de lado, tentando dormir. Mas quando ouve meus passos, abre os olhos lentamente.
— Já vai, filha? — a voz dela é fraca, quase um sopro.
— Tô indo, mãe. Só passei aqui pra ver como você tá... — falo me aproximando.
Ela sorri de leve, mas é um sorriso triste. Me sento na beirada da cama e seguro a mão dela. Os dedos estão gelados.
— Você devia estar na faculdade agora... — ela murmura com os olhos cheios de lágrimas.
— Já falamos sobre isso, dona Marisa. Eu tô onde preciso estar.
— Você tinha um futuro brilhante, Helena...
— Ainda tenho — respondo, tentando manter a firmeza na voz. — Só precisei ajustar o percurso. Não tem problema. Eu dou um jeito. Sempre dei.
Ela vira o rosto pro travesseiro, e eu percebo quando uma lágrima escapa.

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