GISELE NARRANDO:
O vento gelado batia no meu rosto, cortando a pele e fazendo meus olhos lacrimejarem. O carro conversível de Rodrigo acelerava pela estrada quase deserta, e eu me encolhia no banco, cruzando os braços para tentar me aquecer. A blusa de manga longa que eu vestia era fina demais para enfrentar o frio da madrugada. Eu sabia que deveria ter pego algo mais quente antes de aceitar a carona, mas, sinceramente, não estava pensando muito quando Rodrigo ofereceu.
A conversa no início foi tranquila. Falamos sobre a Mieko, a nova babá do Rodriguinho, que dona Madah havia contratado. Eu havia conversado um pouco com ela mais cedo, e a impressão era boa. Ela parecia ser mesmo uma excelente escolha: atenciosa, cuidadosa, e claramente tinha experiência com crianças. Rodrigo comentou que foi uma indicação de uma prima, que era bem exigente.
— Deve ser uma boa pessoa mesmo. Eu me sinto mais tranquila em saber que o Rodriguinho está sendo bem cuidado — eu disse, tentando distrair minha mente do frio.
Rodrigo sorriu, um sorriso que iluminava o rosto dele de uma forma que eu nunca conseguia ignorar.
— Ele merece o melhor. E você também, Gi — ele disse, com a voz baixa, mas firme.
O olhar dele se fixou em mim por um segundo, fazendo meu estômago dar um leve nó.
O sorriso dele me aqueceu por um momento, mas depois a conversa morreu, e o silêncio foi preenchido pelo som do vento e o ronco do motor. Depois de alguns minutos, percebi que Rodrigo parecia estar distante, alheio, como se estivesse perdido em pensamentos.
— Rodrigo, está tudo bem? — perguntei, com a voz saindo suave, mas preocupada.
Ele respirou fundo, sem desviar os olhos da estrada.
— Estou bem… só com algumas coisas na cabeça — respondeu, mas o tom dele denunciava que não era só cansaço.
Havia algo a mais.
Eu sabia que não era fácil para ele. Rodrigo sempre carregava o peso do mundo nas costas, ou pelo menos era assim que parecia. Mas dessa vez, o silêncio dele me incomodava mais do que o normal.
— Se quiser conversar, eu estou aqui — falei gentilmente, esperando que ele se abrisse.
Rodrigo olhou para mim por um instante, antes de desviar do caminho e parar o carro no acostamento, em um ponto afastado. A estrada estava completamente deserta, e a escuridão da noite envolvia o carro como um manto.
Ele desligou o motor e se virou para mim, com o semblante tenso.
— Gi, eu preciso te contar uma coisa… na verdade, duas — ele disse, e meu coração começou a acelerar.
— O que aconteceu? É com o Rodriguinho? — perguntei, sentindo um aperto no peito, o medo de que algo estivesse errado com meu filho.
Rodrigo balançou a cabeça, tentando me tranquilizar.
— Não, ele está bem. É outra coisa... Eu terminei meu noivado com a Micaela — ele disse, e senti um pequeno alívio ao saber que não era sobre o Rodriguinho.
— Ah... isso. Rodrigo, você não me deve satisfações da sua vida — falei, tentando me manter distante.
Eu não queria me envolver mais do que já estava.
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo, claramente angustiado.
— Eu sei… mas, Gi, ela está grávida.
Aquelas palavras caíram como uma bomba. Meu mundo deu uma volta completa, e eu senti o chão sumir debaixo dos meus pés.
— O quê?! — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. — Então você terminou com ela porque ela ficou grávida? — A irritação cresceu dentro de mim, muito mais do que eu deveria sentir, talvez.
Como ele podia ser tão canalha?
— Não, eu não sabia que ela estava grávida quando terminei. As coisas aconteceram juntas… mas a verdade é que outra coisa me fez tomar essa decisão — ele disse, com os olhos fixos nos meus.
Eu estava confusa, sem saber o que pensar. Rodrigo parecia sincero, mas aquilo era um caos total.
— O que foi, então? — perguntei, tentando entender.
— Você, Gisele… e a noite que passamos juntos.
Senti meu coração parar por um segundo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Uma noite, uma vida