RODRIGO NARRANDO:
No dia seguinte
O relógio não marcava nem sete horas e eu já estava no escritório, concentrado no meu computador. A transação que eu fazia era importante — milhões estavam em jogo, e um erro poderia custar muito. O telefone vibrou algumas vezes, mas ignorei. Não queria começar o dia me aborrecendo.
Já sabia quem era.
Enquanto digitava os números finais, o telefone interno tocou, era Virginia.
— Diga
— Senhor Rodrigo, a senhora Micaela está aqui — ela disse com a voz séria, mas educada.
Suspirei profundamente, sentindo o nó da gravata me sufocar. "Ela não pode me dar um tempo?", pensei. Não tinha como evitar agora.
— Deixe ela entrar — respondi, tentando manter a calma, mas já sentindo a irritação crescer.
Poucos segundos depois, Micaela entrou. Ela estava impecável, como sempre. Um conjunto Chanel branco que realçava sua elegância, mas seu rosto traía todo o glamour. Olhos inchados e vermelhos, como se tivesse chorado a noite inteira.
Eu conhecia bem aquele olhar.
— Rodrigo, estou com problemas... — Ela mal se sentou antes de começar a chorar.
Peguei o lenço do meu terno e o estendi para ela. Mica sempre teve uma capacidade impressionante de manipular os sentimentos dos outros, mas hoje parecia diferente. Não era só drama.
Era dor genuína.
— O que houve, Mica?
Ela enxugou os olhos com o lenço, sua mão estava tremendo.
— Os vinhedos da minha família… — Ela fez uma pausa, tentando controlar as lágrimas que desciam — Foram todos queimados.
Aquilo me pegou de surpresa. Sabia que os vinhedos no sul da Itália eram o coração da fortuna que ela herdou de sua família, e o fato de estarem destruídos significava mais do que apenas uma perda financeira.
Era um golpe pessoal para Micaela.
— Como isso aconteceu? — Perguntei, ainda processando a gravidade da situação.
— Foi um incêndio criminoso — ela disse, soluçando. — Um grupo de motoqueiros foram flagrados pelas câmeras de segurança. Atearam fogo nos fundos e destruíram tudo. Funcionários morreram, Rodrigo. Eu... perdi tudo.
As palavras dela ecoaram na minha mente. "Motoqueiros. Incêndio criminoso." Aquilo parecia uma mensagem clara.
— Que merda, Mica... você já tem alguma ideia de quem fez isso?
Ela me olhou com seus olhos azuis marejados, mas cheios de determinação.
— A polícia diz que não tem nenhum suspeito, mas eu sei quem foi. Foi o Renan. Ele sabia o quanto aqueles vinhedos significavam para mim. Quer me ver arruinada... e conseguiu. Estou perdida, não sei o que fazer
Ela me interrompeu, a voz mais firme agora.
— Eu sei, Rodrigo. Mas é insensível da sua parte terminar comigo agora, com tudo isso acontecendo. No pior momento da minha vida, estou grávida poxa!
Ela se levantou, e eu fiz o mesmo, percebendo que a conversa estava tomando um rumo perigoso.
— Desculpa, Mica. Mas não posso continuar se estou confuso com meus sentimentos — falei, firme.
Ela me encarou,com a raiva substituindo a tristeza.
— Você é um canalha, Rodrigo. Vou aceitar ficar no seu apartamento, mas vai ser por tempo limitado, entendeu? — Ela disse, jogando o lenço de volta para mim e saindo, batendo a porta com força.
Olhei para o lenço no chão e o joguei no lixo.
Merda.
Aquele desgraçado estava tentando desestabilizar tudo. Se ele estava disposto a destruir o império dos vinhedos dela, o próximo alvo poderia ser eu.
Precisava garantir a segurança de Gisele e Rodriguinho. Não podia deixar que eles sofressem as consequências dos meus erros.
As palavras de Alejandro no dia anterior ressoaram na minha mente. E no final ele estava certo.
Puta merda!

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