DUDA NARRANDO:
Bati na porta do quarto de Gisele, e logo ouvi sua voz suave de dentro.
— Pode entrar.
Abri a porta devagar e entrei.
Gisele estava em frente ao espelho, ajeitando o cabelo e se preparando para mais uma noite de trabalho. Sempre achei que ela tinha uma beleza simples, mas ao mesmo tempo cativante. Seus movimentos eram rápidos, práticos, como se já estivessem habituados à rotina de se arrumar para o turno no bar do urso.
— Gisa... — comecei, enquanto me aproximava da cama. — Eu estava pensando... você não poderia faltar no trabalho hoje?
Ela parou de passar o batom por um segundo, me olhando pelo reflexo do espelho com um sorriso curioso.
— Como assim? — disse com leve tom de surpresa. — E por que eu faria isso? Não me diga que você está com algum plano mirabolante.
Eu ri, me sentando na ponta da cama.
— Não é bem isso. É que... o Renato vem jantar aqui em casa hoje, para conhecer meus pais e estamos namorando. Queria muito que você estivesse comigo.
Ela arqueou a sobrancelha, virando-se para mim encarar diretamente.
— Espera aí. Você está namorando? — O tom dela era de pura incredulidade. — Eu não acredito nisso!
— Nem eu! — respondi rindo. — É estranho até pra mim, mas as coisas estão indo bem com o Renato. Só que... meus pais vão me bombardear com perguntas, você sabe como eles são. E eu preciso de alguém que me ajude a segurar as pontas.
Gisa deu uma risadinha, voltando a atenção para o espelho enquanto colocava seus brincos.
— Duda, eu adoraria ficar, de verdade, mas você sabe que não posso faltar no trabalho. Estou em uma fase apertada, qualquer dia de falta pode me prejudicar.
Suspirei, tentando não soar desesperada.
— Poxa, Gisa... eu realmente preciso de você hoje. Meus pais vão me deixar constrangida com aquele interrogatório de sempre. Por favor, diz que sim. — Eu me aproximei um pouco mais, quase implorando.
Ela parou por um instante, me observando. Sua expressão era de quem estava pesando as opções, dividida claramente.
— Ai, Duda... — Ela fez uma pausa, pensativa. — Tá bom. Vou dizer que estou doente, mas vou me sentir péssima por deixar o pessoal na mão hoje.
— Obrigada, Gisa! — Sorri, aliviada. — Você não tem ideia do quanto isso significa pra mim.
Gisele suspirou, terminando de tirar os brincos que havia colocado.
— Tudo bem, mas só por você. Estou me sentindo mal, sabia? — Ela brincou, mas havia um fundo de verdade no que dizia.
Havia algo que eu precisava dizer a Gisele há tempos, mas as palavras nunca vinham simples. Agora parecia ser o momento certo. Respirei fundo, escolhendo com cuidado o que diria.
— Gisa... olha, a minha mãe e o Rodrigo não têm coragem de falar, então eu vou. — Gisele me olhou, surpresa, esperando o que vinha a seguir. — Por que você não sai do seu emprego? O Rodrigo quer te ajudar. Ele disse que pode te dar uma boa pensão, cuidar de todos os custos do Rodriguinho... Você pode fazer uma faculdade, um curso, e ficar mais tempo com o bebê.
Falei de forma gentil, esperando não subir como uma intrometida. Vi a expressão dela mudando de nível. Ela se fechou um pouco, e eu já sabia o que vinha.
— Não, Duda... — Gisele disse, balançando a cabeça. — Isso não. Eu não quero depender do seu irmão. Eu estou bem assim.
— Ah, Gisele, deixa de ser orgulhosa. — Falei de forma mais firme, mas ainda com carinho. — É de partir o coração ver o Rodriguinho à noite sem você. Meus pais estão até colocando suas roupas na cama dele pra ele sentir seu cheiro. Não estamos reclamando, só estamos dando uma opção melhor. Você tem apoio agora, Gisa. Aceite nossa ajuda, pelo Rodriguinho. — Olhei nos olhos dela, buscando algum sinal de que minhas palavras tocassem seu coração.
Ela suspirou, parecendo ainda relutante, mas um pouco mais receptiva.

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