RODRIGO NARRANDO:
Enquanto dirigia, cada palavra de Gisele ecoava na minha mente. O silêncio entre nós era ensurdecedor, quebrado apenas pelo som suave da respiração de Rodriguinho, que dormia profundamente no colo dela. Eu a observava de soslaio enquanto ela cobria o menino com a blusa para protegê-lo do vento frio. Minha mente, por outro lado, estava uma tempestade. Micaela não parava de ligar, e tive que desligar o celular. Não conseguia pensar em mais nada agora além da realidade que Gisele me tinha revelado, uma realidade que parecia mudar tudo, eu era pai.
Quando chegamos à comunidade afastada, o cenário à minha volta me fez sentir um nó na garganta. As ruas estavam movimentadas de um jeito que me incomodava. Vi os olhares das pessoas seguindo o carro enquanto passamos lentamente. Alguns rapazes, claramente do tráfico, faziam transações nas esquinas, mas mantive o foco no endereço. Finalmente parei em frente a um cortiço com as luzes fracas na fachada.
Era ali.
Desliguei o carro e desci, caminhando até o outro lado para abrir a porta para Gisele. Ela desceu com cuidado, o bebê ainda adormecido em seus braços.
— Obrigada, — disse ela, com um tom cansado, mas grato.
Eu apenas assenti.
— Vou te ajudar com as compras — falei, já pegando todas as sacolas com facilidade.
Seguimos para dentro do cortiço.
O corredor era apertado, com roupas penduradas em varais esticados entre os prédios, e o lugar tinha um cheiro de mofo misturado com comida. Subimos as escadas estreitas e mal iluminadas até o segundo andar. Gisele lutou um pouco para tirar a chave da bolsa, e eu a ajudei com a fechadura. Quando a porta se abriu, me deparei com o pequeno espaço que ela chamava de lar. Era simples, minúsculo.
A sala, cozinha e quarto eram todos no mesmo ambiente, com exceção de um banheiro ao lado.
Brinquedos estavam espalhados pelos cantos, e o berço conjugado ao lado da cama deixava claro o quanto aquele lugar era apertado.
Gisele foi direto até o berço, onde colocou Rodriguinho com cuidado, ajeitando o cobertor ao redor dele. Eu, ainda segurando as sacolas, fechei a porta atrás de mim, colocando as compras sobre o pequeno sofá. A simplicidade do lugar me surpreendeu. Não era que eu esperasse luxo, mas ver como ela vivia com nosso filho... aquilo me atingiu de uma forma que eu não esperava.
Gisele ajeitou os cabelos, bagunçados pelo vento, enquanto se aproximava de mim, com o cansaço estampado em seu rosto. Parei perto da sala e olhei diretamente em seus olhos.
— Acho que temos muito o que conversar — eu disse, com minha voz mais firme do que eu planejava.
Ela suspirou, levando uma das mãos para colocar o cabelo atrás da orelha.
— Sim, com certeza, mas podemos fazer isso outra hora? Estou exausta do trabalho — sua voz era baixa, e ela olhou para o relógio na parede.
Já era uma da manhã.
Eu sabia que não podia esperar, mas também via o quanto ela estava desgastada.
— Claro, quando é sua folga? — perguntei, tentando ser razoável.
Ela soltou um riso breve, quase sem humor.
— Minha folga foi ontem... Agora só semana que vem.
— Não vou esperar até semana que vem para falar sobre meu filho— respondi rapidamente. — Que horas você trabalha?
Ela entendeu minha pressa, e seu tom foi mais calmo ao responder:
— Eu entro às cinco da tarde e trabalho até as quatro da manhã. Hoje saí mais cedo, por isso fui à farmácia.

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