RODRIGO NARRANDO:
Era quase seis da tarde quando deixei Gisele no Bar do Urso. Eu conhecia o lugar, mas nunca tinha frequentado, universitários lotavam o lugar, e meu estilo de vida atual me afastou desse tipo de ambiente.
A realidade da vida dela, sua história difícil, tudo o que ouvi naquele dia... ainda estava processando. A ideia de que eu tinha um filho mexia comigo de um jeito que eu não esperava.
O pensamento em Rodriguinho me fazia sorrir; mi hijo.
E pensar que ele estava em um apartamento apertado, sendo cuidado por uma vizinha, enquanto a mãe trabalhava até de madrugada em um lugar bar... Eu queria tirá-los daquele buraco agora mesmo, mas sabia que precisava ser cauteloso.
Dirigi até o novo prédio da Binance Financeira no México. Um arranha-céu moderno e luxuoso, cheio de vidro espelhado e linhas arrojadas. A empresa, fundada pelas minhas tias na Itália, era nossa ferramenta para movimentar milhões no mercado de ações e lavar o dinheiro do cartel. Meu primo cuidava da filial na Sicília, enquanto eu e Alejandro tocávamos as operações no México, bom, tecnicamente, era só eu e minha prima Vittória agora, já que Alejandro estava sempre envolvido com os assuntos obscuros da família.
Ao entrar, os funcionários me cumprimentavam com acenos e sorrisos, cientes da minha presença. Caminhei pelo saguão imponente até os elevadores, indo direto para o último andar, onde ficava a sala da presidência. Quando cheguei ao corredor, passei por Virginia, minha secretária.
Ela estava no telefone, mas assim que me viu, desligou e veio até mim.
— Senhor, a dona Micaela ligou de hora em hora perguntando pelo senhor, e a dona Vittória está na sala dela te esperando. Me pediu para avisar quando o senhor chegasse — ela falou rápido, com seus olhos expressando aquela mistura de respeito e urgência.
Suspirei, já irritado com o peso da responsabilidade que me aguardava.
— Eu falo com a Micaela e a Vitória depois. Já não passou da hora de você ir embora? — perguntei, enquanto tirava o paletó, sentindo o calor do dia se dissipar.
— Sim, senhor, mas como tive que cancelar todos os compromissos importantes de hoje, precisei reorganizar sua agenda — explicou Virginia, ainda atenta.
— Olha quem resolveu aparecer no final do expediente, depois de me fazer vir quase parindo para o trabalho — ela disse, cruzando os braços, com o olhar afiado como sempre.
— Desculpe, Vicky, eu tive um assunto importante para resolver — respondi, sem me esquivar, virando mais uma dose.
— Posso saber o quê foi mais importante que uma reunião com os acionistas de Boston, com um contrato de 65 milhões de dólares? — Vitória retrucou, exasperada, colocando a mão nas costas, claramente sentindo o peso da gravidez.
Suspirei.
Sabia que precisava desabafar, e quem melhor do que minha prima para ouvir? Ela sempre foi direta, mas sabia escutar.
— Eu descobri que tenho um filho — soltei, sem rodeios, encarando seus olhos que logo suavizaram, surpresos.

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