RODRIGO NARRANDO:
Acordei no meio da madrugada, às quatro da manhã, com a cabeça girando. Micaela ainda dormia ao meu lado, o lençol enrolado em seu corpo nu, enquanto o quarto estava mergulhado em silêncio. Mas minha mente estava longe de estar em paz.
A noite passada foi... intensa. Micaela, como sempre, sabia me envolver, sabia como mexer comigo de um jeito que ninguém mais fazia. No calor do momento, quando ela sussurrou no meu ouvido, provocante, "Você não quer fazer um filho comigo, Rodrigo? Imagina só, um bebê lindo como você, com os meus olhos...", eu fui levado pelo desejo. De alguma forma, aquelas palavras me fisgaram. Eu disse que sim, que claro que queria um filho com ela. No fundo, era o que eu queria, certo? Povoar o mundo com descendentes meus, além de Rodriguinho ter mais alguém que pudesse levar meu nome, minha herança.
Mas, por mais envolvido que estivesse com Micaela, houve um instante em que, durante o sexo, meu pensamento fugiu. Fugiu para longe daquela cama, daquele quarto. A imagem de Gisele apareceu na minha cabeça, de repente, como um flash, e ali, no corpo de Micaela, eu vi o rosto dela.
O que foi aquilo? Por que eu pensei em Gisele naquele momento? Algo dentro de mim me incomodou.
Tentei afastar a ideia, me focar em Micaela, mas a sensação de estranheza permaneceu. Era como se, de algum jeito, estivesse traindo a mim mesmo. Passei o resto da noite lutando com esse sentimento, fingindo que estava tudo bem, mas por dentro... nada estava certo.
Agora, deitado ali, olhando para o teto, enquanto Micaela dormia, eu não conseguia evitar o turbilhão de pensamentos que se formava. Gisele. Como ela estava? O que estaria fazendo agora? Na certa, estava saindo do trabalho, se virando para chegar em casa e cuidar do Rodriguinho. Pensei nela pelas ruas naquele horário, exausta, e no nosso filho. A dúvida sobre a paternidade dele me corroía, e Micaela, com suas insinuações, não ajudava.
Ela plantou a semente da dúvida em mim. Sempre com aquela fala: "Você não acha estranho, que ela não assistiu as entrevistas de economia que você deu, com certeza é golpe." E eu, claro, negava, dizia que não, que Gisele nunca faria isso, mas agora... será que eu realmente tinha tanta certeza que o filho era meu? Será mesmo que Gisele estava mentindo? Por mais que eu tentasse afastar essa ideia, ela estava lá, crescendo dentro de mim. E a noite de ontem, onde pensei em Gisele, só alimentava mais essa confusão.
Eu precisava descobrir a verdade, precisava ter certeza sobre tudo isso. Porque se, de fato, Rodriguinho fosse meu filho... Eu teria que dar uma vida melhor para ele o quanto antes. E o que eu estava sentindo por Gisele? Porque eu não parava de pensar nela?
O relógio marcou 4h15. Levantei-me da cama devagar, tentando não acordar Micaela, e fui até a janela. A escuridão lá fora parecia refletir a bagunça que estava dentro de mim. Eu precisava agir, precisava encarar essa situação de frente e não ser controlado pelas minhas emoções.
Olhei de relance para Micaela, dormindo tranquilamente, alheia ao turbilhão dentro de mim. E, por mais que eu quisesse fingir que estava tudo bem entre nós, a verdade era que Gisele estava ocupando um espaço enorme na minha cabeça. Eu sabia que, enquanto essa dúvida sobre Rodriguinho existisse, eu nunca estaria realmente em paz.
Não consegui dormir mais desde que as palavras de Gisele e Micaela ficaram rondando a minha cabeça. Eu precisava saber mais sobre o menino, sobre o "Rodriguinho". Algo dentro de mim dizia que ele era meu filho. Decidi enviar uma mensagem pra ela.
"Bom dia, Gisele. Posso buscar o Rodriguinho hoje para ficar comigo enquanto você trabalha?"
Não demorou muito para ela responder. Meu coração bateu mais rápido quando vi a notificação no celular.
"Bom dia, Rodrigo. Pode sim."
Alívio. Fiquei grato por ela não dificultar o acesso ao menino. Isso só reforçava a sensação que eu já tinha de que ele era meu filho.
Senti a necessidade de saber mais sobre ela, sobre como estava.
"Você já chegou em casa?"
Ela respondeu logo em seguida:
"Ainda não. Estou no ônibus."
Aquilo me deixou ansioso. A ideia de Gisele e meu possível filho estarem naquele aperto, no meio da madrugada... Decidi ir malhar, talvez isso ajudasse a aliviar a tensão. Enquanto corria na esteira, as mensagens continuavam pingando no celular.
“Me avise quando chegar em casa, tome cuidado”


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