RODRIGO NARRANDO:
A manhã foi um turbilhão de reuniões e análises. Eu sabia que o ritmo seria intenso, mas não esperava que as coisas se acumulassem dessa forma. O escritório estava agitado, todos pareciam estar na corrida contra o tempo, e eu, no meio de tudo, tentava manter a cabeça no lugar.
Passei as primeiras horas revisando relatórios, e um deles me chamou a atenção: o de Breno. Ele havia feito um trabalho minucioso, detalhando os dados operacionais com precisão. Breno era um funcionário eficiente. Estava na fila para uma promoção, e, sinceramente, ele merecia ser considerado. Mas não era o único. Além dele, havia outros três candidatos para o cargo, e cada um deles tinha qualidades que poderiam fazer a diferença na decisão final.
Enquanto analisava o desempenho de Breno, lembrei-me das reuniões de feedback que tive com os outros. Hélio tinha experiência e era bom em lidar com situações de crise, Mariana possuía uma visão estratégica incrível e liderava sua equipe com pulso firme. E Breno, apesar de ser o mais jovem, tinha uma energia e dedicação que impressionavam. A decisão seria difícil. Promover alguém não era apenas reconhecer o trabalho bem feito, mas também uma aposta no futuro da empresa.
Logo pela manhã, pedi que Breno viesse ao meu escritório para discutir o relatório. Quando ele chegou, pontual como sempre, percebi o brilho de ambição em seus olhos, e isso me fez lembrar de quando eu mesmo estava naquela posição, esperando minha chance para assumir os negócios da minha família.
— Bom trabalho, Breno. A atenção aos detalhes aqui é notável, — eu disse, segurando o relatório em uma das mãos.
Ele sorriu, tentando disfarçar o nervosismo.
— Obrigado, Sr. Corleone. Tenho trabalhado duro para entregar o melhor. — Sua postura era firme, e ele falava com confiança, mas havia uma hesitação em seus olhos, como se estivesse à espera do próximo passo, do veredito.
Conversamos sobre alguns ajustes e diretrizes, mas o que Breno realmente queria saber não estava nas entrelinhas do relatório. Eu via em sua expressão que ele esperava mais – algo que pudesse lhe dar uma pista sobre a decisão da promoção. Eu, no entanto, mantive a neutralidade. Era cedo para promessas, e eu queria ter certeza de quem faria a diferença no cargo.
Depois que Breno saiu, voltei minha atenção para as ligações que se acumulavam. Clientes precisavam de respostas, e os projetos exigiam supervisão constante. Almocei no próprio escritório, comendo um sanduíche frio e tentando equilibrar o telefone entre as ligações e e-mails urgentes. O relógio já marcava quase duas da tarde, e eu ainda tinha uma longa lista de tarefas para resolver antes de sair.
Por fim, quando o relógio bateu três e meia, decidi que era hora de encerrar o expediente. Não completamente, mas o suficiente para que pudesse finalmente sair para um compromisso pessoal que, embora não estivesse agendado no meu calendário, era prioritário.
Buscar meu filho.
Peguei as chaves do carro e, ao sair do escritório, deixei instruções com minha assistente para lidar com qualquer urgência que surgisse nas próximas horas. Dirigir até o cortiço de Gisele exigia tempo. O lugar era afastado, quase escondido, longe do centro movimentado da cidade.
O caminho era longo, e, à medida que me afastava da cidade, a paisagem urbana dava lugar a terrenos mais vazios, quase desolados. As ruas se tornavam mais estreitas, e o silêncio predominava, quebrado apenas pelo som do motor do carro e os pensamentos que ecoavam na minha mente.
Cheguei ao cortiço e, como de costume, os olhares dos homens nas esquinas me seguiram com intensidade. Eram os caras do tráfico, sempre ali, como sombras, observando cada movimento de quem passava. Sabiam quem eu era, ou pelo menos, achavam que sabiam. Meu carro, visivelmente deslocado em meio àquele cenário, chamava atenção, mas eu já estava acostumado com o desconforto de ser observado.
Respirei fundo e estacionei, ignorando os olhares desconfiados.
Entrei no cortiço, o cheiro forte de comida e roupas úmidas tomou conta do ambiente. Ao passar pelo pátio comunitário, avistei Dona Sueli e outras mulheres estendendo roupas no enorme varal. Elas conversavam animadamente, mas quando me viram, o burburinho cessou por um instante.
Cumprimentei-as com um breve aceno.
— Boa tarde, Dona Sueli, — eu disse, e vi seus olhos brilharem um pouco mais do que o normal.
As outras mulheres também me lançaram olhares curiosos, e foi impossível não perceber os suspiros que escaparam entre sorrisos tímidos.
Subi as escadas com passos firmes, desviando das crianças que corriam descontroladamente pelos corredores apertados. Era assim durante o dia, o cortiço parecia ter vida própria, movimentado e caótico. Ao chegar na porta de Gisele, bati suavemente e esperei.


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