RODRIGO NARRANDO:
Cheguei à porta da kitnet dela e bati com força. A madeira vibrava a cada batida, mas eu não me importava.
— Gisele, abre a porta! Eu quero ver meu filho, Gisele! — Minha voz saiu arrastada, mas alta o suficiente para ela ouvir, mesmo do lado de dentro.
A porta se abriu com um tranco, e lá estava ela. O rosto amassado de sono, com os olhos irritados.
— Você quer derrubar a minha porta desse jeito? Vai acordar o Rodriguinho! — Ela disse com aquele tom de voz que me tirava do sério.
— Eu não quero saber da porta, Gisele. Cadê meu filho? Eu vim buscar ele! — Respondi, tentando empurrar a porta para entrar, mas ela ficou no caminho, me impedindo.
Ela me olhou de cima a baixo, e o desgosto no rosto dela era claro.
— Você está bêbado? Eu não acredito nisso! — Ela me empurrou para trás, e a força dela me desequilibrou por um segundo.
— Eu quero ver meu filho! Você não vai me afastar dele, tá me ouvindo? O exame deu positivo, ele é meu! — Eu disse, irritado, com o tom de voz mais alto do que deveria, mas a raiva estava me consumindo.
— Lógico que ele é seu! Eu te disse isso, mas você não vai ver o meu filho bêbado desse jeito! São cinco da manhã, você não pode vir fazer escândalo na minha casa nessa hora — Ela disse, me empurrando de volta para o corredor e fechando a porta atrás dela.
Eu sentia meu corpo fervendo, como se cada palavra dela fosse um tapa na cara. Não conseguia acreditar no que ela estava fazendo.
— Sai da frente, Gisele! Eu quero ver meu filho. Você não atende minhas ligações, não responde minhas mensagens. Eu tenho direito de ver meu filho, você não pode me impedir! — Minha voz ecoava pelo corredor.
— Você vai acordar a vila toda desse jeito! Vai embora da minha casa! — Ela respondeu, me empurrando de novo, mais forte dessa vez.
— Vai fazer o quê? Jogar água em mim também, Gisele? Eu não me importo. Pode jogar, não vou sair daqui sem meu filho! Rodriguinho... Rodriguinho Corleone! Papai tá aqui, filho... Não vou te abandonar! — Comecei a gritar, chamando o nome dele como se isso fosse resolver algo.
— Você é louco! Eu vou chamar a polícia se você não for embora agora. — A ameaça dela era firme, mas só fez meu sangue ferver mais.
— Pode chamar, Gisele. Minha família manda na polícia... Chama! Que eu vou denunciar você por querer me deixar longe do meu filho.
— Rodrigo, vai embora! Não vou te deixar ver meu filho transtornado desse jeito.
— Você que me deixou assim, Gisele! É culpa sua! — Respondi, com minha voz ecoando pelo corredor, e o álcool só tornava tudo mais confuso e distorcido.
Ela cruzou os braços, irritada, mas o olhar dela estava mais calmo agora. Como se já soubesse o que ia acontecer.
— Culpa minha? Eu não vou discutir com você nesse estado, mas vamos ter uma conversa séria depois. — A frieza na voz dela só aumentou minha raiva.
— Vamos ter uma conversa séria agora! Eu quero falar tudo agora, tudo que tá engasgado aqui! — Gesticulei, levando a mão à garganta como se pudesse arrancar as palavras à força.
Ela bufou.
— Então fala, Rodrigo...
Eu a encarei, tentando organizar os pensamentos, mas as palavras saíam aos tropeços, misturadas com a raiva e o álcool.
— Você se faz de santinha, mas é uma diaba... Eu sei o que você fez comigo, Gisele. Me seduziu com esse seu olhar... Com esse seu perfume... Você é boa chica... Eu caí como um patinho no seu jogo.
Ela ficou em silêncio por um segundo, me encarando com um olhar de pura incredulidade.
— Rodrigo, você não tá falando nada com nada. Pelo amor de Deus, só vai embora daqui! Você só vai ver o Rodriguinho quando o juiz permitir, porque eu cansei!
— Como eu vou ficar calmo longe do meu filho? A senhora acha justo isso? — Minha voz treme, a bebida misturada com a raiva me deixando cada vez mais agitado.
— Ela vai te deixar ver o menino, mas não agora, não desse jeito. Vai pra casa, toma um banho, depois vocês conversam com calma — Dona Sueli diz, tentando me guiar para perto das escadas.
— Rodriguinho… eu te amo, filho… Gisele, eu quero ver meu filho… — Eu grito mais uma vez para a porta fechada.
— Rodrigo, vai descansar… Depois vocês conversam, meu filho. — Dona Sueli insiste.
— Fala pra ela me deixar ficar com o meu filho, Dona Sueli. Eu não quero ser ruim com a Gisele… — Minha voz falha, misturada com o álcool e o desespero.
— Eu vou falar com ela. Você vai ver o Rodriguinho mais tarde, mas agora vai descansar, tá bom? — Ela diz, firme, mas carinhosa.
— Promete? — Minha pergunta é quase uma súplica.
— Prometo. Agora vai descansar. — Ela me direciona para a escada.
— Eu vou… mas eu volto. Ela não vai me afastar do meu filho… fala pra ela! — Digo, já descendo os degraus, vacilante.
Dona Sueli, pequena perto de mim, me ajuda a descer as escadas, enquanto os outros vizinhos nos observam. Continuo murmurando sobre o Rodriguinho enquanto ela me conduz até o carro, o apoio dela é a única coisa me mantendo de pé.
Entro no carro, ligo o motor e começo a dirigir de volta para casa, quase batendo o carro várias vezes.
Quase, mas não.
Chego inteiro no estacionamento do meu prédio, por algum milagre. Subo pra cobertura e, sem pensar, pego outra garrafa de tequila.

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