RODRIGO NARRANDO:
Acordei com uma dor de cabeça latejante. As tequilas que bebi na noite anterior me deixaram completamente desnorteado. Sentei na cama e olhei ao redor, tentando entender onde eu estava, reconhecendo minha suíte. Tudo parecia confuso. Levantei com dificuldade, ainda um pouco tonto, e fui direto para o banheiro. Enquanto usava o vaso, apoiei uma das mãos na parede, reclamando baixinho de dor.
— Merda... por que eu tomei tanta tequila? — resmunguei, tentando lembrar o que aconteceu antes de apagar.
Terminei ali e fui até a pia. Lavei o rosto com água gelada e me forcei a encarar o espelho. Meu cabelo estava uma bagunça, os olhos fundos, e eu parecia um trapo. As cortinas do quarto estavam fechadas, deixando tudo escuro. Com uma mão pesada, as abri, esperando ver a luz do amanhecer, mas estava escuro lá fora. Franzi o cenho, confuso.
— Mas que horas são?
Peguei o celular e, para minha surpresa, eram três da manhã... do dia seguinte. Eu havia apagado o dia inteiro. Olhei para a tela cheia de notificações e mensagens não lidas. Algumas chamadas perdidas do escritório, o que só piorou a sensação de culpa e fúria que começava a crescer dentro de mim.
— Merda, merda, merda... — passei a mão pelos cabelos bagunçados, furioso comigo mesmo.
Entre as mensagens, vi uma da Micaela dizendo que havia passado no meu apartamento, viu que eu estava dormindo, mas decidiu não me acordar porque estava gripada e preferiu ficar na casa dela. Isso ainda era o de menos.
Logo abaixo, uma mensagem do porteiro: "Sua irmã saiu com seu carro, senhor."
— Aquela bastarda... — murmurei com raiva.
Depois disso, outras notificações vieram. Mensagens de Duda. Ela havia enviado o endereço de Gisele para ela mesma. E não era sonho. Ela esteve aqui. Merda. Olhei mais algumas ligações não atendidas da minha mãe e do meu pai, e aquilo só significava uma coisa: eu estava encrencado.
Tentei ligar para Duda, mas o celular dela estava desligado. A raiva borbulhava dentro de mim, andando de um lado para o outro no apartamento. A cabeça doía, minha mente estava um caos. Decidi tomar um banho para tentar acalmar a dor e o nervosismo. A água quente escorria pela minha cabeça, e, aos poucos, os flashes da noite anterior começaram a surgir.
— Puta merda... o que eu fiz? — murmurei para mim mesmo, esfregando o rosto e tentando respirar fundo.
As memórias vieram como estalos. Ir até o cortiço de Gisele. Gritar. Falar besteiras. O constrangimento começou a pesar nos meus ombros. Como ela iria me olhar depois disso? Eu sou um idiota. Fechei os olhos, envergonhado com a imagem que devo ter deixado.
Saí do banho, enrolei uma toalha na cintura e desci para a cozinha. O apartamento estava organizado, sinal de que a faxineira havia passado por aqui. Pelo menos isso estava em ordem. Preparei um sanduíche com o que tinha na geladeira e tomei um suco, observando a varanda e pensando nas merdas que eu estava fazendo desde que Gisele e o Rodriguinho apareceram na minha vida.
Depois do lanche, abri uma garrafa de água gelada e me sentei na poltrona da sala. Acendi um cigarro, tentando organizar meus pensamentos, enquanto assistia o amanhecer lá fora. Peguei o celular novamente e chequei o rastreador do carro. O veículo estava se movimentando, saindo do cortiço de Gisele. O endereço anterior indicava que Duda esteve no Bar do Urso. Elas estavam juntas até agora.
Tentei ligar para Duda mais uma vez, e ela atendeu no segundo toque.
— Alôô! — ela disse, com uma voz animada e provavelmente bêbada.
— Maria Eduarda, o que você está fazendo até agora na casa da Gisele? — perguntei irritado.
Deitei e apaguei. Quando acordei, eram nove e meia da manhã. Fui direto para o chuveiro e tomei um banho frio para tentar aliviar a cabeça que ainda latejava. Depois do banho, tomei um analgésico com água, me vesti com uma camiseta polo preta, uma calça social, sapatos italianos e coloquei meu Rolex. Arrumei a barba, ajeitei o cabelo e pedi ao porteiro para chamar um táxi.
Saí do apartamento e entrei no táxi. Estava a caminho da mansão dos meus pais. Sabia que o dia seria longo.
Quando o táxi passou pelo imenso portão da mansão, senti uma onda de familiaridade misturada com um peso incômodo no peito. A fachada era imponente como sempre, cercada por câmeras de segurança e guardas armados. O muro alto e impenetrável protegia a casa dentro do condomínio de segurança máxima. Nada escapava aos olhos vigilantes dos homens de confiança de meu pai.
Respirei fundo antes de sair do carro e dei uma gorjeta generosa ao taxista, que acenou agradecido. Assim que pisei fora, os soldados que protegiam a propriedade me cumprimentaram, eretos e sérios.
— Patrón, bom dia! — ouvi de vários deles enquanto passava.
— Bom dia. — acenei de volta, sentindo o peso das responsabilidades que minha família carregava.
Ao me aproximar da entrada, Rita, a governanta que trabalhava na casa desde que eu era criança, me esperava com a porta aberta.
— Buenos días, Rita — Eu disse, sem perder o passo, enquanto cruzava o hall de entrada, que ainda mantinha o piso de mármore brilhando.
— Buenos días, patrón. Seus pais o aguardam no escritório — ela respondeu, formal como sempre, mas com uma leve preocupação no olhar.

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