GISELE NARRANDO:
Coloquei o último par de tênis no Rodriguinho, e ele balançava as perninhas, muito animado como se soubesse que iria passear. O body azul-marinho, o short mostarda com aquele ursinho fofo na parte de trás, e o cabelo penteado para o lado. Ele parecia um bonequinho.
Sorri enquanto passava o perfuminho leve no pescoço dele, sussurrando:
— Hoje você vai conhecer seus avós, meu amor. Precisa se comportar, hein? — Ele riu de volta, aquela gargalhada gostosa de bebê que derretia meu coração.
Quando o coloquei no chão, um sentimento estranho me invadiu. A ansiedade crescia a cada minuto. Conhecer os pais de Rodrigo... E se ele estivesse lá? Pior ainda, e se Micaela estivesse lá? Pensei em cancelar tudo. Mas aí meu celular vibrou com uma mensagem de Duda, dizendo que já estava chegando. Respirei fundo, me apressando para terminar de me arrumar. Já tinha tomado banho, então só precisava trocar de roupa.
Mas o problema era que eu não tinha muita opção. Fazia meses que não comprava nada para mim. Todas as minhas economias iam para o Rodriguinho. Ele crescia tão rápido que eu estava sempre atrás de roupinhas novas para ele. No meu guarda-roupa, só o básico. Escolhi uma calça jeans e uma camiseta rosa claro de mangas longas que deixava uma pequena parte da barriga à mostra. Simples, prática, mas moldava bem meu corpo. Passei uma maquiagem leve, ajeitei o cabelo e finalizei com um perfume.
Duda chegou batendo na porta e falando seu nome. Abri com um sorriso e ela entrou com a energia de sempre.
— Subi para ajudar com o gatão — disse ela com um sorriso enorme. Ela logo viu Rodriguinho no chão engatinhando e abriu os braços. — Cadê o gatão da titia?
Ela pegou ele no colo, e ele gargalhou, balançando os bracinhos enquanto murmurava algo como "gugudada". Aquela alegria dele fez meu peito aquecer e me arrancou outro sorriso.
— Duda, só mais alguns minutinhos. Estou terminando de arrumar a bolsa dele — avisei, enquanto colocava fraldas e roupinhas extras. Rodriguinho era imprevisível, sempre tinha que estar preparada.
Com a bolsa dele pronta e a minha também, travei a enorme janela da kitnet e fechei a porta, enquanto Duda cheirava o pescocinho do Rodriguinho, fazendo ele rir já no corredor.
— Ele tá cheiroso demais! — Ela disse, beijando o rosto dele, e eu balancei a cabeça, rindo, enquanto trancava a porta.
Lá embaixo, uma Range Rover branca estava estacionada em frente ao pátio. Duda caminhou até o carro com Rodriguinho no colo e abriu a porta de trás, revelando uma cadeirinha para bebê.
— Peguei do carro do Rodrigo — disse ela, com um sorriso.
— Nada demais — Duda respondeu despreocupada. — Tá super de boa. — O sorriso dela parecia querer me tranquilizar, mas meu estômago revirava com a ideia de reencontrá-lo.
Tinha tantas coisas passando pela minha cabeça: a kitnet nova que eu precisava arrumar, meu trabalho, a mudança da villa em poucos dias... e agora essa família, e Rodrigo de novo. Não fazia ideia que a minha vida viraria ainda mais de cabeça para baixo.
Chegamos a um condomínio luxuoso, e ela dirigiu até uma rua com um enorme muro de pedras e árvores altas. O portão de ferro preto estava cercado por seguranças armados, e isso me fez engolir em seco. Duda dirigiu até uma propriedade imponente, uma casa de pedras com telhado marrom que parecia saída de um filme.
— Chegamos! — disse Duda animada, estacionando o carro.
Ela pulou do banco e foi logo soltando Rodriguinho da cadeirinha, enquanto eu, ainda nervosa, desci mais devagar.
Peguei as bolsas enquanto Duda carregava Rodriguinho, que estava agitado e sorridente no colo dela. Segui Duda até a entrada da casa, onde uma senhora com cabelos em coque nos cumprimentou educadamente.
— Buenas tardes, Rita — Duda respondeu com um sorriso, enquanto eu apenas assenti com a cabeça, tentando controlar meu nervosismo.

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