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Uma noite, uma vida romance Capítulo 62

GISELE NARRANDO:

A conversa flui de forma natural entre todos. Eles me perguntam sobre o que Rodriguinho gosta, o que ele não gosta, e rimos juntos das pequenas travessuras que ele já começa a fazer mexendo em tudo que tem sobre a mesa. Sinto-me mais relaxada, aos poucos. É como se, por um breve momento, eu pertencesse a esse lugar, a essa família.

Quando Rodriguinho passa de colo em colo, sendo mimado por todos, sinto uma pontada de alívio. Eles o adoram, e ele também parece gostar de estar ali, rodeado de tanto carinho. E, por um segundo, permito-me imaginar: e se isso tudo fosse real? E se esse momento fosse o começo de algo maior?

Mas logo afasto o pensamento. Isso é temporário, uma visita. Não posso me iludir.

Depois que terminamos a sobremesa, o sol estava ficando forte demais, então voltamos para a sala de estar com o ar condicionado ligado. O ambiente estava fresco, e Rodrigo, com aquele jeito cuidadoso, colocou o Rodriguinho no chão, mas sem tirar os olhos dele.

Era engraçado ver o Rodrigo correndo atrás do filho, todo preocupado. Rodriguinho, claro, estava se divertindo muito conhecendo a casa dos avós.

Foi nesse momento que Madah se virou para mim, com um olhar que me fez endireitar na cadeira.

— Gisele, eu queria conversar com você um pouco, pode ser? — perguntou ela.

Olhei para o relógio, calculando o tempo que ainda tinha ali, e sorri, sem querer ser rude.

— Claro, podemos conversar.

Ela me conduziu para outra sala de estar, separada por uma porta de vidro. O lugar era tão impecável quanto o resto da casa. Ao me sentar, dei uma olhada rápida e vi Duda voltando para a sala com uma câmera profissional nas mãos, gravando tudo que Rodriguinho estava fazendo, junto com Rodrigo e o pai dela.

Sentei-me ao lado de Madah, e o silêncio que se seguiu foi um pouco desconfortável. Não sabia exatamente o que dizer. Ela era uma mulher impressionante, com uma aura de poder que me intimidava. Mesmo quando sorria, parecia ter controle sobre tudo ao redor. Eu me ajeitei na poltrona branca, tentando não demonstrar o nervosismo que eu sentia.

— Gisele, eu te chamei para conversarmos em particular por três motivos — Madah começou, com os olhos fixos nos meus. — Primeiro, quero te parabenizar por cuidar tão bem do meu neto todo esse tempo. Segundo, obrigado mais uma vez por você ter vindo até aqui. E, por fim, me desculpe pela atitude do Rodrigo em fazer o exame de DNA sem o seu conhecimento.

Minhas mãos estavam um pouco trêmulas, e eu respirei fundo antes de responder.

— Então a senhora está sabendo... — deixei escapar, sentindo meu coração acelerar.

— Por favor, me chame de você — ela pediu gentilmente. — E sim, a Duda me contou seu lado dos fatos. Já conversei com o Rodrigo, e ele admitiu que foi um erro. Sinto muito por isso.

A sinceridade em seus olhos me tocou de uma maneira inesperada. Era uma mulher poderosa, mas, naquele momento, parecia vulnerável.

— Você não precisa se desculpar, Madah. Eu fiquei chateada porque o Rodrigo disse uma coisa e fez outra pelas minhas costas, mas... enfim, vou falar com ele sobre isso depois — respondi, querendo manter a conversa leve, mas sem ignorar completamente o que tinha acontecido.

— Acho ótimo vocês dois conversarem. Mas tem mais uma coisa que quero pedir, Gisele. Eu e o meu marido queremos estar mais presentes na vida do Rodriguinho.

— Quanto a isso, não vejo problema nenhum. Vocês podem nos visitar quando quiserem, ou eu posso trazê-lo mais vezes — respondi com naturalidade.

Não queria impedir que o Rodriguinho tivesse a presença dos avós, especialmente porque eles claramente o queriam por perto.

Madah concordou, mas seu olhar me deixou com a sensação de que havia algo mais.

— Que tal você e o Rodriguinho ficarem aqui temporariamente, até encontrarmos um lugar adequado para vocês? Apenas por alguns dias. Isso vai te dar tempo para resolver tudo com calma, sem pressa.

Senti um nó na garganta. Ela realmente não desistiria até que eu aceitasse. Eu estava sem saída, e por mais que a ideia me incomodasse, era a única opção que parecia segura para o meu filho.

— Bom, se for temporário, até eu encontrar um apartamento... — respondi, meio sem jeito, mas achando que não tinha escolha. — Eu aceito, mas prometo que não vamos ficar muito tempo.

Madah sorriu, genuinamente satisfeita, e me puxou para um abraço inesperado.

— Não se preocupe com o tempo. Gisele, você não tem noção do quão feliz eu estou por ter o meu neto primogênito em casa, é o melhor presente que poderíamos receber — disse ela, com uma firmeza que mostrava o quanto essa situação significava para ela. — Jamais vamos desamparar você.

Sei que ela dizia isso com o coração, mas algo dentro de mim se agitava. Por mais que eu quisesse acreditar na boa vontade de todos ali, o medo de perder o Rodriguinho me dominava. Eu tinha lutado tanto para chegar até aqui. Segurei as mãos no colo, respirei fundo e olhei diretamente nos olhos dela.

— Madah, por favor, eu estou acreditando em tudo o que você está me dizendo, mas quero que me prometa uma coisa — pedi, tentando manter minha voz firme.

— Claro, o que você quiser, querida — ela respondeu, com curiosidade e uma doçura quase maternal.

Respirei fundo mais uma vez, juntando toda a coragem que tinha.

— Eu não quero que tirem o meu filho de mim. Jamais vou aceitar ficar sem o Rodriguinho — Eu disse, com a voz carregada de emoção. — Isso não é negociável. Entendo que vocês querem estar perto dele, e acho importante que meu filho tenha o afeto da família, mas eu quero sempre estar presente na vida dele. Não vou aceitar que vocês tenham a guarda dele.

Aquelas palavras saíram do fundo da minha alma. Era meu maior medo. Por mais que o ambiente fosse confortável e cheio de promessas de apoio, eu sabia que não poderia abrir mão do meu filho. Nunca.

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