RODRIGO NARRANDO:
Desde o momento em que Gisele entrou no carro e colocou o cinto, o silêncio entre nós parecia sufocante. O ar estava pesado, e a tensão se instalou como uma terceira presença. Eu dirigia em direção ao trabalho dela, mas a cada quilômetro percorrido, sentia o peso do que havia acontecido entre nós. Eu a tinha decepcionado, e isso me corroía por dentro.
Olhei de relance para Gisele, mas ela permanecia imóvel, com os olhos fixos para fora da janela. O rosto dela, tão calmo e sereno, me deixava desconfortável. Ela estava tão bonita, com os cabelos caindo levemente sobre os ombros. A timidez que normalmente a acompanhava agora parecia ser uma barreira entre nós. Eu queria dizer algo, mas as palavras me faltavam. O orgulho me segurava, como sempre. Eu raramente errava – pelo menos, era isso que eu gostava de acreditar – e pedir desculpas nunca foi o meu forte.
Mas Gisele... Ela era diferente. Era a mãe do meu filho. E, por mais que isso pesasse em mim, eu sabia que não podia continuar brigado com ela.
Minha cabeça estava uma bagunça. Enquanto segurava o volante com mais força, pensava em como começar. Cada segundo de silêncio fazia tudo parecer ainda pior. Finalmente, tomei uma decisão. Desviei o carro da rota chegando no trabalho dela, estacionando em uma rua mais tranquila e vazia.
— Rodrigo, o que você tá fazendo? Eu já tô atrasada — ela disse, virando-se para mim, com a irritação clara em seu tom.
Respirei fundo, tentando manter a calma.
— Gisa, precisamos conversar — falei, encarando-a.
— Não me chame assim. E não vamos conversar agora — ela rebateu com os olhos brilhando de raiva.
Aquela raiva me atingiu de cheio, mas eu mantive o controle.
— Mas minha irmã te chama assim... — soltei, tentando suavizar a tensão.
— Ela pode. Mas pra você, eu sou apenas Gisele — respondeu firme, e eu pude sentir o peso de cada palavra.
Respirei fundo, sabendo que não seria fácil.
— Ok, Gisele. A gente precisa conversar, não quero continuar com esse clima ruim entre nós. Isso não faz bem ao nosso filho — falei com o tom mais suave que pude encontrar.
Ela suspirou, claramente exausta, mas não menos irritada.
— O que não faz bem ao nosso filho, Rodrigo, é você agir pelas minhas costas. Esse clima ruim é culpa sua. E você ainda foi fazer escândalo completamente bêbado na minha casa de madrugada? Você sabe que eu mal consigo dormir... — as palavras dela vieram carregadas de cansaço e frustração.
— Eu sei... Me desculpa, Gisele. Eu errei feio, não devia ter agido daquele jeito, nem ter ido na sua casa bêbado. Perdão — falei com toda a sinceridade que consegui juntar.


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