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Uma noite, uma vida romance Capítulo 78

RODRIGO NARRANDO:

O vento da noite batia suave, e eu respirava fundo, sentindo a familiaridade do momento. Meu conversível estava estacionado no lugar de sempre, reluzindo sob as luzes do estacionamento. Entrei, liguei o som e deixei a música preencher o silêncio enquanto dirigia para a mansão dos meus pais. Mesmo sendo o caminho oposto do meu apartamento, ver o Rodriguinho valia o desvio.

Eu esperava que ele ainda estivesse acordado.

A estrada noturna era tranquila, o motor rugia baixinho enquanto os faróis cortavam o asfalto. A música ecoava pelo carro, uma trilha sonora para os meus pensamentos que vagavam. Não via meu filho há alguns dias, e sempre que o pensamento de não estar presente para ele surgia, sentia um incômodo no peito.

Quando cheguei à mansão, o portão se abriu automaticamente, revelando o jardim perfeitamente cuidado que cercava a casa. Estacionei o carro na frente da entrada e saí, sentindo o cheiro da grama recém-cortada. A propriedade imponente diante de mim trazia memórias da minha infância, mas hoje tudo parecia um tanto distante, quase frio.

Entrei pela porta da frente e logo encontrei minha mãe na sala, elegantemente espalhada no sofá. Ela usava um robe longo estampado com onças, uma faixa segurando sua franja para trás, e os óculos de leitura no rosto. Vestida com uma camisola preta longa por baixo, ela tinha uma aura ao mesmo tempo casual e imponente. Na mão, uma xícara de chá fumegava, enquanto ela examinava emails no iPad em seu colo, com as pernas esticadas à sua frente.

— Filho, pensei que não viria mais hoje — Ela disse, surpresa ao me ver.

— Buenas noches, madre — eu sorri, me aproximando e beijando sua testa com carinho. — Vim dar um beijo no Rodriguinho antes dele dormir.

Sentei-me no sofá, próximo aos pés dela, enquanto ela tirava os olhos do iPad para me olhar com ternura.

— Ah, querido, chegou tarde. Seu pai foi fazer o Rodriguinho dormir e acabou dormindo junto. Faz meia hora, veja — disse ela, mostrando-me a câmera do quarto no iPad.

Na tela, meu pai estava desmaiado ao lado do Rodriguinho, que dormia esparramado na cama. Era uma cama enorme, mas mesmo assim ele ocupava todo o espaço com os braços e pernas abertos.

— Ele dorme com os braços e pernas abertas igual a você quando era criança... todo espaçoso, tão bonitinho — comentou minha mãe com um sorriso.

Suspirei, frustrado.

— Poxa, eu queria ter dado um beijo nele... Rodriguinho costuma dormir mais tarde.

— Estamos tentando mudar isso, querido. Imagina, ele só dorme quando a mãe chega do trabalho. Ele é tão esperto, sente falta dela durante a noite. Mas conversei com uma psicóloga que explicou a importância do sono noturno. Estamos usando algumas peças da roupa da Gisele para ele dormir mais cedo, também estamos deixando ele mais cansado, e assim ela pode descansar quando chega de manhã — explicou minha mãe, com aquele tom cuidadoso.

A ideia de usar roupas de Gisele para fazer Rodriguinho dormir me pegou de surpresa.

— Usando roupa da Gisele pra fazer ele dormir? Eu não tinha pensado nisso... Poxa, mãe, eu achei que você fosse fazer ela parar de trabalhar até de madrugada naquele bar. Ela não precisa disso. Quero dar uma boa pensão para Gisele cuidar somente do nosso filho, ele é muito pequeno para passar as noites sem ela — falei, sentindo a seriedade pesar em minha voz.

Minha mãe tirou os óculos e me olhou com firmeza.

— Querido, se eu pudesse, diria de uma vez para Gisele não trabalhar naquele bar. Mas preciso ir com calma, ela aceitar vim morar aqui em casa, foi um grande passo, eles ainda estão se adaptando. Estou pensando em como fazer ela sair desse bar. Mas ela já me disse que não quer pensão e nem depender de nós. Não posso impor a nossa realidade para essa moça de uma hora para outra.

Eu sabia que minha mãe estava certa, mas a ideia de Gisele trabalhando à noite, longe do Rodriguinho, me incomodava profundamente.

— Até parece que não conhece aquela maluca. Onde a Duda levou a Gisele? Mãe? — insisti, cada vez mais preocupado.

— Ah, elas foram para o Love Story, a boate do seu primo Guero, filho da sua tia Mônica e do seu tio Draco — minha mãe respondeu, como se não fosse nada.

— Mãe, aquele lugar é um puteiro! Não acredito que você deixou a mãe do meu filho ir para essa boate, ainda para piorar com a louca da Duda! — gritei, furioso.

— Ah Rodrigo, não seja dramático. A Duda pediu um camarote reservado para elas, e nossos seguranças estão por perto para garantir que nada aconteça às duas. Além do mais, é uma boate como qualquer outra; a diferença é que há quartos privados. Gisele é nova, ela precisa se divertir, e não se preocupe com o Rodriguinho, que ele está sendo muito bem cuidado — disse minha mãe com naturalidade.

— Eu vou indo, mãe. Até mais — Eu disse, respirando fundo, enquanto me aproximava dela para dar um beijo de despedida em sua testa.

— Cuida-te e não vai estragar a noite das meninas — a advertência da minha mãe ecoou enquanto eu me dirigia para a saída.

Foram elas que estragaram a minha noite.

Saí pensando furioso. Entrei no carro e acelerei, dirigindo em direção ao centro da cidade. Conhecia muito bem minha irmã para saber que a Duda não era uma boa influência para estar perto da Gisele.

A Gisele era uma moça ingênua e cheia de sonhos. Duda, por outro lado, era louca demais. Eu sabia das loucuras que minha irmã aprontava em Hollywood, e não ia deixar que a mãe do meu filho se envolvesse em qualquer uma delas.

Tirei a gravata, irritado, sentindo um nó na garganta, e joguei-a no banco do lado. A noite ainda estava longe de acabar.

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