DUDA NARRANDO:
A música alta da Love Story ecoava nas paredes e o som reverberava até o corredor escuro onde eu estava. O ritmo vibrava no chão, no ar, e fazia meus pensamentos girarem. Eu precisava de um minuto para me acalmar, mas logo percebi que o tempo havia passado e Gisele ainda não entrou.
Merda.
Passei a mão pelos cabelos, já impaciente. Sabia que não deveria ter deixado ela sozinha com o idiota do meu irmão. Ele tinha uma maneira de agir que me incomodava profundamente, sempre achando que podia controlar tudo, agora especialmente a Gisele.
Saí apressada pelo corredor, abrindo a porta corta-fogo com força.
Nada. Nenhum sinal dos dois lá fora. Meu coração apertou de raiva e preocupação.
Aonde ele tinha levado ela?
Foi quando a porta atrás de mim abriu de novo. Guero, junto com dois seguranças, saiu com seu ar de despreocupação, aquele jeito confiante de quem sempre sabe de tudo antes dos outros.
— O que foi, Duda? — ele perguntou, notando minha cara de irritação.
— Acho que o Rodrigo levou a Gisa — respondi, já pegando meu celular do decote para tentar ligar para meu irmão.
Nada. Celular desligado. Pra variar.
Guero suspirou, tragando seu baseado com calma, como se o mundo estivesse no ritmo certo para ele, e disse:
— Sim, meus seguranças me falaram que ele colocou ela no carro e já foram.
— Aquele bastardo me paga — resmunguei, batendo o salto da minha sandália no chão, sentindo a frustração me consumir.
Guero ergueu uma sobrancelha, soltando a fumaça devagar.
— Você quase me fodeu hoje. Por que não me avisou que ela era mulher do Rodrigo? — Ele perguntou, com seu tom mais sério do que de costume.
Eu ri com desprezo, cruzando os braços.
— Ela não é mulher dele. O Rodrigo é um louco possessivo. Só porque tiveram um filho, ele acha que pode controlar a vida dela — respondi, guardando o celular de volta.
Só de pensar naquilo, minha raiva aumentava.
A música alta vibrava nas paredes e pulsava no meu peito, enquanto voltávamos ao camarote de Guero. Tomei mais uma balinha e virei uma margarita de uma só vez. O gosto doce e forte desceu queimando, me ajudando a entrar de novo no clima da noite. Rodrigo tinha estragado tudo, mas talvez, eu pensava, Gisele precisasse desse tempo com ele, para colocar algumas verdades para fora.
Me convenci de que estava tudo bem, que não era minha culpa, meu irmão não era tão irresponsável assim.
Guero, como sempre, já estava à vontade com duas dançarinas de cada lado e uma terceira no colo dele. Fumava um baseado com uma calma que me irritava e, ao mesmo tempo, me tranquilizava. Ele sabia viver o momento, algo que eu às vezes esquecia. A música estava cada vez mais envolvente, e depois de mais algumas doses de tequila, comecei a relaxar.
A noite ainda podia ser divertida.
Só que, por causa das balinhas, minha boca estava seca como o deserto. A sede era insuportável, e o garçom demorava uma eternidade para reabastecer meu copo. Impaciente, levantei e fui direto ao bar mais próximo. Quando me debrucei no balcão, o barman me lançou um sorriso malicioso que mexeu comigo. Alto, negro, e com aquele olhar penetrante... Era exatamente o tipo de distração que eu precisava.
— Você tem algum drink de pimenta? Quero algo bem forte — falei com um sorriso travesso, mordendo levemente o lábio.
Ele abriu um sorriso ainda mais largo e piscou para mim. Céus.
— Claro, deixa comigo — respondeu com uma confiança que me fez encará-lo de cima a baixo.
Enquanto ele preparava o drink, fiquei observando seus movimentos rápidos e habilidosos, jogando pimenta vermelha e álcool de forma precisa no copo. Eu não tinha ficado com ninguém desde que cheguei ao México, e isso estava me deixando insuportavelmente inquieta. Nos meus pensamentos, passeavam memórias de alguns “rolos” de Los Angeles, mas, sinceramente, eu estava querendo provar algo mais... mexicano.

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