POV: ALESSIA LOMBARDI
Eu não aguentei. Minha mente era um turbilhão de estática e fogo. Sacudi a cabeça e me enfiei no banheiro, trancando a porta com um clique que soou como um tiro no silêncio do motel. Encostei as costas na madeira gelada e deixei o corpo escorregar até o chão. Eu nem queria banhar; eu só precisava de silêncio, de distância daquele cheiro de uísque e daquela boca que parecia ter roubado meu oxigênio. Chorei um pouco — um choro curto, seco, de quem não entende como o prazer e o ódio podem morar no mesmo beijo. Recuperei a postura, lavei o rosto com água gelada para apagar o rubor das bochechas e, quando voltei para o quarto, o Dominic não estava mais lá. Apenas o Cassian, já apagado na cama, ocupando o mínimo de espaço possível para garantir que eu tivesse um canto para descansar.
Acordei ainda de madrugada com um toque firme no meu ombro.
— Está na hora — a voz do Dominic era baixa, suave e desprovida de qualquer traço do homem que quase me devorou na varanda horas antes.
Levantei em um salto, fiz minha higiene pessoal e logo estávamos na estrada novamente. O trajeto foi silencioso e denso. Dominic ia na frente, mas eu sentia os olhos dele no espelho retrovisor, mapeando cada movimento meu com uma precisão cirúrgica. Era um olhar desconfortável, invasivo, mas ao mesmo tempo viciante. Eu daria tudo para saber o que passava naquela mente psicótica enquanto ele me observava como se eu fosse um enigma que ele não conseguia resolver — ou que não queria soltar.
Chegamos à pista de pouso particular e o vento da manhã agitou meu vestido branco, fazendo-me sentir exposta sob o céu nublado. Perto do jato luxuoso, vi o casal que parecia ter saído diretamente de uma revista de elite. A mulher era deslumbrante: cabelos pretos como a noite, um vestido verde que parecia seda pura e um olhar que carregava uma inteligência afiada. Ao lado dela, um homem alto e imponente. Conforme chegava perto, os reconheci imediatamente: o Sr. e a Sra. Moretti, os protagonistas daquele casamento sangrento.
Ao lado deles, estava o homem bonito que eu vira no dia do casamento usando um terno roxo. Hoje ele vestia roupas sociais mais sóbrias, mas continuava sendo um gato de parar o trânsito. Ele me cumprimentou com um belo sorriso que, por um segundo, me fez sentir normal. Ao lado deles, Lorenzo mantinha sua vigilância habitual.
Aproximamo-nos e a mulher sorriu para mim de um jeito caloroso que eu não recebia há meses. Era um sorriso que não carregava julgamento, apenas empatia.
— Alessia, certo? — Ela se aproximou, estendendo as mãos de forma acolhedora. — Nossa, você é ainda mais bonita de dia. Sou Heloísa.
— Obrigada... você também é maravilhosa — respondi, genuinamente surpresa com a recepção. Eu esperava mais gelo, não um abraço invisível.
Heloísa virou-se para o marido e deu-lhe um beijo casto, mas carregado de significado.
— Cuide-se lá, Killian — ela disse, a voz suave, mas com a firmeza de quem conhece os riscos daquele mundo.
— Você também. Estarei de volta antes que perceba — ele respondeu, e o modo como ele a olhou me deu um calafrio. Era o mesmo tipo de possessividade que eu via no Dominic, mas com uma camada de... paz. Como se o monstro dele estivesse domado apenas por ela.
Heloísa pegou na minha mão, um gesto de cumplicidade feminina que eu não sabia que precisava tanto até aquele momento.
— Vamos, Alessia? Homens e suas guerras... vamos deixar que eles se resolvam enquanto a gente conversa em um lugar muito mais confortável.
Subimos para o jato. O interior era o auge do luxo, com poltronas de couro que pareciam abraçar o corpo e detalhes em madeira que exalavam riqueza. Assim que o avião decolou e os homens ficaram em outra seção ou em terra, Heloísa se acomodou à minha frente e me serviu uma taça de champanhe.
— Então... — Ela começou, cruzando as pernas com uma elegância inata. — Você deve estar se sentindo no meio de um furacão, não está? Como é viver com um psicopata? Eu pensei que você fosse prisioneira, que fosse castigada, mas vejo que você está muito bem para quem vive no inferno.
Eu hesitei, olhando para as bolhas subindo no cristal da taça, sentindo o peso da pergunta.
— Ele diz que é um monstro. E ele é um psicopata, eu sei... mas não é tão ruim quanto dizem. Ou talvez ele só seja um pouco confuso — murmurei, tentando defender o homem que, horas antes, tinha me prensado contra a parede.

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