POV: ALESSIA LOMBARDI
Acordei com a sensação de que um bando de cavalos da máfia tinha atropelado a minha cabeça e depois dado ré, só para garantir o serviço. Era a pior ressaca da minha vida. Eu mal lembrava como tinha descido daquele avião em solo brasileiro, e muito menos como tinha vindo parar naquela cama. Cada fresta de luz que ousava passar pela cortina parecia uma facada certeira nos meus olhos.
Entre os lapsos de memória e a náusea avassaladora, eu tive um sonho... ou talvez fosse uma lembrança perdida, nublada pelo champanhe caro. O Dominic estava ali, e a voz dele não era aquele rosnado habitual que me arrepiava a espinha; era algo... suave. Ele dizia coisas que eu não conseguia pescar por inteiro, algo sobre eu ser dele, ou que o dinheiro não importava.
Não sei se foi um delírio da minha mente embriagada, mas a dúvida doía. Como acreditar em um homem que te beija como se fosse te devorar e, no minuto seguinte, te trata como uma mosca insignificante?
A realidade me atingiu com um enjoo súbito. Corri para o banheiro e vomitei o resto do orgulho que ainda me sobrava.
— Ressaca é a pior parte, não é? — A voz da Heloísa veio da porta. Ela apareceu segurando uma xícara de chá, aspirinas e com aquele olhar de quem já tinha passado por exatamente a mesma situação. — Toma isso. E depois, vai para a piscina. A água gelada é a única coisa que vai te devolver a alma hoje.
— Onde ele está? — perguntei com a voz rouca, tentando desesperadamente fingir que "ele" era apenas um detalhe irrelevante na minha manhã.
— Saiu cedo. Negócios de homens que acham que mandam no mundo — ela piscou para mim, cúmplice.
Segui o conselho dela. Tomei o chá, virei um Gatorade e cheguei a comer sorvete direto do pote apenas para acalmar o estômago antes de me jogar na piscina. E, por Deus, a Heloísa estava certa. O choque térmico da água gelada contra a minha pele, que parecia arder em uma febre alcoólica, foi um milagre. Fiquei ali, boiando sob o sol do Brasil, tentando aproveitar a liberdade temporária de ser uma "convidada".
Tentei chamar os seguranças para brincar, para quebrar aquele gelo. Eles eram todos carrancudos e me davam um pouco de medo, mas eu queria ser simpática, queria mostrar que, ao contrário do Dominic, eu era legal. O Leonardo, segurança da Heloísa, era muito gentil. Ele conversava comigo, mas mantinha sempre aquela distância respeitável de quem sabe que está lidando com dinamite.
De repente, todos os soldados se afastaram. Senti uma pressão súbita no ar, um peso que eu já conhecia bem. Olhei para trás e ele estava lá, parado, exalando um ódio que parecia capaz de secar a piscina inteira. O Dominic nunca foi uma pessoa exatamente controlada, mas ele sempre mantinha uma frieza glacial no rosto. Agora não. O semblante dele era de fúria pura, uma tempestade pronta para desabar.
Eu provoquei. Usei cada palavra ácida dele como arma contra ele mesmo. "Sou uma convidada, lembra?". Ver a veia do pescoço dele saltar enquanto os soldados me olhavam foi o meu ápice. Eu estava começando a entender o jogo dele. Ele podia até não me amar, mas ele me queria. Ele queria me manter em uma caixa, trancada, apenas para ele.
Lembrei do que a Heloísa disse sobre obsessão. Eu precisava testar. Resolvi que não facilitaria mais a vida dele.
Quando ele me arrastou para o quarto e me jogou na cama, não havia mais o Capo da Sicília ali; havia apenas um homem desesperado por controle, um homem que estava perdendo a luta contra os próprios instintos. E o sexo... meu Deus. Cada vez que ele entrava em mim, parecia que as peças do meu quebra-cabeça pessoal finalmente se encaixavam. Quando ele me chupou, eu perdi o chão, as paredes e o teto. Eu era apenas prazer bruto sob o comando da língua dele. Ele podia comandar uma organização criminosa inteira, mas ele mandava no meu corpo também, e eu odiava o quanto eu amava aquilo.
E o banheiro? Aquilo foi brutal. Foi uma marcação de território clara. Ele bateu na minha bunda até ficar vermelha, um castigo ridículo só para garantir que eu não tivesse coragem de usar biquíni na frente de outros homens de novo. Em vez de admitir que tinha ciúmes, em vez de dizer "eu não quero que ninguém te veja porque você é minha", ele agia como um animal bruto. Mas cada estocada dele contra os azulejos gelados, cada vez que ele me preenchia, eu me sentia estranhamente mais completa.
Amanheci no Brasil com o corpo marcado, a alma confusa e a certeza de que o Dominic Ferraro estava perdendo a guerra contra si mesmo. Ele podia tentar manter aquela máscara de indiferença, mas o modo como ele me possuía entregava a verdade que ele se recusava a falar.
Quando contei à Heloísa sobre nós, ela me disse que ele estava de quatro por mim, e que eu só precisava aprender a puxar a coleira no momento certo. Mas eu sentia um medo terrível de acreditar nisso e acabar me frustrando. Eu já tinha dito que o amava, e ele não tinha dito nada de volta. O silêncio dele era o que mais me assombrava.
Dormi como há muito tempo não conseguia. Talvez fosse o cansaço acumulado, ou o fato de que, entre aquelas quatro paredes, o Dominic me fez sentir que eu não era apenas um fardo de três bilhões de dólares. Acordei descansada, o corpo leve, sentindo cada marca que ele deixou na minha pele como um troféu silencioso da nossa guerra particular.

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