POV: DOMINIC FERRARO
Deixei Alessia desmoronando no chão do quarto e fechei a porta, trancando-a com um estalo seco. O som da minha própria risada ainda ecoava no corredor, mas por dentro, uma irritação fria começava a se instalar.
Era divertido vê-la com medo, sim. Eu passei anos imaginando as engrenagens daquela mente de princesa travando ao descobrir a verdade, mas o silêncio dela me incomodava. Eu queria que ela gritasse. Queria que ela implorasse, que se arrastasse e pedisse por favor, como qualquer outra pessoa faria. O fato de ela manter aquela fachada de ferro, mesmo quando o mundo dela estava implodindo, era uma pedra no meu sapato. Ela era apenas uma ferramenta, um objeto necessário para eu retomar o que o pai dela me roubou, mas ela estava se tornando um objeto difícil de manusear.
Desci as escadas e encontrei Enzo e Cassian na sala de estar. O clima ali era o oposto do inferno que eu acabei de deixar no andar de cima. Cassian ria de algo que Enzo dizia, um raro momento de normalidade que só os dois conseguiam manter naquela casa. Ver meus irmãos ali, seguros, era o lembrete constante do porquê eu precisava ser o monstro da família.
— Está quase na hora — eu disse, cortando a conversa deles. — O sol está baixando. O horário da gravação e da chamada com o Leopoldo se aproxima.
Enzo se levantou, a expressão relaxada dando lugar ao profissionalismo que eu esperava dele. Cassian apenas me observou, o olhar atento de quem aprendeu a ler meus humores antes mesmo de eu abrir a boca.
— Mande os guardas se posicionarem em duas fileiras no corredor principal, do quarto dela até o escritório — ordenei. — Quero um corredor da morte. Quero que ela sinta o cano de cada arma e o olhar de cada homem enquanto caminha. Se ela não quer gritar por conta própria, vou dar a ela motivos suficientes para perder a voz.
Enzo me encarou por um momento, medindo minhas palavras.
— Você não acha que está pegando pesado demais com a garota, Dom? — ele perguntou, cruzando os braços. — Geralmente, quando temos um problema, você vai lá, mata ou tortura de uma vez. Toda essa encenação psicológica... por que com ela é diferente?
Ignorei a pergunta dele. Não ia explicar para o meu irmão algo que nem eu mesmo queria admitir: que a resistência dela estava me instigando a ser mais criativo na crueldade.
— Apenas faça o que eu mandei, Enzo — respondi, meu bom humor evaporando.
Virei as costas antes que ele pudesse insistir e comecei a subir as escadas novamente. Eu ia buscar minha peça de troca. Era hora de mostrar ao Leopoldo que o menino que ele tentou afogar agora era o dono da vida da sua filha.
Entrei no quarto e a encontrei exatamente onde a deixei, mas agora o efeito do sedativo havia passado por completo. Seus olhos verdes estavam injetados, uma mistura de pânico e ódio.
— Ei está na hora de ir, não quer falar com seu pai? — eu disse, mas ela nem se moveu.
— Para que? Minhas roupas e o vídeo não foram suficientes? — ela rosnou enquanto me olhava furiosamente com aqueles lindos olhos verde.
— Filmamos você para ele saber que eu posso tirar o que eu quiser de você a qualquer hora — respondi, mantendo a voz monótona. — Inclusive isso. — Apontei para a cabeça dela.
Alessia levou a mão ao cabelo mecanicamente. Vi o exato momento em que seus dedos encontraram os fios curtos e repicados da franja onde antes havia o comprimento. Eu mesmo tinha cortado aquela franja irregular enquanto ela dormia, um lembrete de que até o sono dela me pertencia agora.
— Por quê? — ela sussurrou, a voz quebrada.
— O cabelo é bonito — eu disse. Pela primeira vez, não deixei a ameaça transparecer no tom. Eu estava sendo honesto. — É uma pena ter cortado, mas precisávamos do impacto. Leopoldo precisa sentir que cada parte sua está sendo alterada por mim.
Ela me olhou, o choque substituindo o pânico por um segundo.
— Você acha... meu cabelo bonito?
— É lindo. Diferente. Quem não entende isso é um idiota — retruquei, caminhando até ela e estendendo minha mão para que pudesse firmar para se levantar.
Por um breve momento, a guarda dela baixou aceitou a minha mão e se pôs de pé. Alessia começou a falar sobre o passado, sobre como as pessoas a chamavam de aberração por causa da cor do cabelo e como o respeito que recebia era apenas o medo projetado da sombra do pai. Eu a escutava, mapeando suas fraquezas.

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