POV/ SIENA
Mas ele virou o rosto na minha direção e fixou os olhos escuros nos meus com tanta intensidade que fui obrigada a desviar o olhar, incapaz de aguentar.
— Então você está me dizendo que isso tudo aí é a verdade? — ele semicerrou os olhos, a desconfiança nítida em cada linha do rosto. — Acho que você está mentindo.
— Claro que é verdade! Você não sabe nada sobre mim. Quem pensa que é? Eu, hein... — esbravejei, tentando mascarar o pânico com a arrogância.
— Sei... — o tom arrastado e debochado que ele usou para responder me irritou profundamente.
— Lorenzo. Nem sei por que você se importa tanto. Cuide da sua vida — disparei, cruzando os braços.
— Eu também não sei por que caralho eu me importo com uma garotinha teimosa e mentirosa como você — ele rebateu na hora, a voz grave ecoando pesada no espaço fechado do veículo.
— Então para a porra do carro e me deixa aqui! — ordenei, apontando o dedo indicador para o vidro da janela.
— Não. Não vou te deixar em lugar nenhum. Você é amiga do Dominic.
Soltei uma risada forçada, cheia de escárnio, balançando a cabeça negativamente.
— Aconteceu alguma coisa? Por que não me conta?
— Porque não é da sua conta e nós não somos amigos.
— Ah... Então você tem amigos aqui por acaso? — ele quis saber, a ironia estalando na boca dele.
— Tenho. Eu tenho a Luara... o Dom... a Alessia... — tentei puxar mais nomes na minha mente para parecer que tinha uma rede de proteção, mas travei, o cansaço bloqueando os meus pensamentos. — ...e o Ethan.
No mesmo segundo em que o nome do Ethan saiu da minha boca, o corpo de Lorenzo enrijeceu visivelmente. Ele arqueou a sobrancelha, os olhos ficando frios.
— O Ethan?
— É... esse mesmo — respondi, engolindo em seco.
— Desde quando vocês são amigos e desde quando vocês se conhecem? — a pergunta saiu quase como um rosnado exigente.
— Não te interessa — respondi de primeira. Mas eu conhecia o Ferraro ao meu lado; sabia muito bem que ele não deixaria barato e infernizaria a minha vida até conseguir o que queria. Por isso, resolvi explicar uma parte da história para acalmar o monstro. — Conheci ele no casamento. Ele foi legal comigo e não apontou uma arma para mim.
Vi quando os nós dos dedos do Lorenzo ficaram brancos ao apertar com uma força brutal o volante do carro.
— É? E é só isso? — ele fez uma pausa longa, a respiracão pesada ricocheteando no painel. — Amigos?
— Sim, ué.
— Você tem alguma coisa com ele a mais, Siena?
— Não! Não tenho nada!
Lorenzo pisou no freio com tudo, parando o carro de uma vez no acostamento daquela rua completamente deserta. O impacto violento me jogou para a frente, e o cinto de segurança travou contra o meu peito com força, me segurando no banco.
Ele girou o corpo inteiro na minha direção, o rosto a centímetros do meu, os olhos brilhando com uma fúria possessiva que me fez paralisar.
— Fala a verdade para mim — ele exigeu, aproximando-se ainda mais, o calor do corpo dele me prensando contra o banco. — Você tem ou não tem alguma coisa com o Ethan?
— Tipo... romântico? Não tenho! Não tenho nada com ele nesse sentido... Ai, eca! — fiz uma careta de verdadeiro horror e nojo. Aquilo era absurdo, o Ethan era o meu irmão de sangue, a ideia me revirava o estômago. — Ele é só o meu amigo, Lorenzo. Amiiiigo!
Lorenzo fixou os olhos na minha boca por alguns segundos que pareceram uma eternidade, avaliando a minha reação. Vi quando ele mordeu o próprio lábio inferior e passou a ponta da língua ali, tentando controlar a respiração descompassada. E depois soltou um ar pesado pelo nariz, os ombros relaxando minimamente.
— Tá.
— E você? — criei coragem do fundo do meu peito, movida por uma audácia que nem sabia que tinha, decidida a cutucar o monstro de volta. — Você tem alguém?
A pergunta flutuou entre nós dois, pesada e cheia de subtexto. Lorenzo desviou o olhar para o para-brisa, o semblante ficando subitamente sombrio e distante.
— Tenho... e não tenho — ele respondeu, a voz arrastada, densa, provavelmente pensando no contrato de aliança e na noiva que ele nunca chegou a ver na vida. — Existe uma mulher. Uma aliança de máfia. Mas eu não sei onde ela está ainda. Mas um dia eu vou saber.
Ele voltou a me encarar. Aqueles olhos castanhos, que sempre pareciam blocos de gelo prontos para matar, suavizaram de um jeito tão inesperado que o meu coração falhou as batidas no peito.
— Mas até lá... e mesmo depois que eu a encontrar... eu quero fazer as coisas darem certo para você. Quero fazer alguma coisa para me redimir por ter apontado uma arma para a sua cabeça — ele admitiu, os olhos cravados nos meus, sem desvios.
— Duas vezes — fiz questão de lembrar, estreitando os olhos para esconder o quanto aquela proximidade estava me afetando.

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