POV/ ALESSIA
Desferi um chute lateral no saco de couro. O impacto viajou pelo meu pé, subindo pela perna como uma descarga elétrica uma dor boa, sólida, que ajudava a silenciar o caos na minha mente. Chutei de novo. E de novo. Cada golpe era para o rosto de Dominic. Cada soco era para o beijo que ele me roubou antes de fugir como se eu fosse um incêndio prestes a consumi-lo.
— Você tem força — Canário comentou da porta, os braços cruzados, observando meu treino improvisado.
— Eu tenho ódio — retruquei, acertando um soco que fez as correntes estalarem no teto com um som metálico e agressivo.
O som do couro sendo castigado ecoava pela sala vazia como tiros de metralhadora. Eu estava encharcada; o suor grudava os fios prateados no meu pescoço e a calça legging parecia uma segunda pele. Meu top esportivo mal dava conta de conter minha respiração arfante, e eu sentia meus músculos queimarem.
De repente, um assobio agudo e pausado cortou o ar. Um som predatório.
Parei o movimento no ar. Olhei para a penumbra da entrada e lá estava ele. Dominic Ferraro. Ele estava encostado no batente, as mãos nos bolsos da calça social, a camisa branca aberta nos primeiros botões revelando o início daquela tatuagem sombria. Seus olhos heterocrômicos pareciam ler cada um dos meus pensamentos mais sujos.
— Olhem só... a gatinha tem garras. Que gracinha essa demonstração de força. Quanta motivação — ele debochou, caminhando para dentro com aquele cinismo que me dava vontade de gritar.
Limpei o suor da testa com as costas da mão, encarando-o sem recuar um centímetro.
— Não precisa se preocupar com a minha motivação, Ferraro. Não falta incentivo. É só olhar para essa sua cara de desgraçado que a vontade de bater vem naturalmente.
Dominic soltou uma risada curta e rouca. — Cuidado, principessa. Se continuar me olhando assim, vou acabar achando que você gosta desse jogo tanto quanto eu.
Ele se moveu como um tubarão circulando o barco. Foi até o bar, pegou a garrafa de Macallan que eu havia aberto e serviu dois dedos no copo de cristal. O som do gelo batendo no vidro pareceu um trovão no silêncio da sala.
— Pelo visto andou bebendo do meu estoque — ele comentou, erguendo o copo. — Mas não poderia ter escolhido um mais barato?

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