POV/ LORENZO
Ethan quebra o silêncio com a pergunta que eu estava evitando desde que pousei em Gênova.
— Por falar nisso, precisamos falar sobre a Antonella. O Killian te contou a ideia dele, Ferraro?
Bufo, jogando a cabeça para trás na areia e fechando os olhos. O cansaço físico não é nada perto da irritação que esse assunto me causa.
— Casamento arranjado? Sério? Eu não quero ser domesticado por contrato. Não vou me casar com uma freira que nunca viu o sol e só sabe rezar.
— Você tem a memória curta ou só é um desgraçado, Ferraro? — Ethan rebate, a voz subindo um tom. — Essa é a segunda vez que você cospe no nome dela. Rejeitou o contrato há cinco anos e está rejeitando agora, sem nem saber quem ela é.
Dou de ombros, indiferente, mas o comentário sobre o passado me incomoda o suficiente para eu abrir um dos olhos.
— Cinco anos atrás nós estávamos recuperando o poder. O Dominic só tinha olhos para o plano de destruir os Lombardi e pegar a "princesa" dele. O Dom estava instável demais para um relacionamento, e eu não ia me amarrar a uma mulher enquanto o sangue ainda corria nas ruas, enquanto tinha que criar um irmão e ainda cuidar de mim mesmo. Aliança ia ser oficial, eu sei, mas preferimos subir ao poder por si só, sem migalhas. O conceito era um erro na época e continua sendo um erro agora.
— Mesmo assim, deveria ter olhado — Ethan continua, a voz carregada de uma proteção que eu ainda não entendo completamente. — Antonella não está naquele convento por escolha; foi trancada lá aos nove anos pelo meu pai. Ela é linda, Lorenzo. Ruiva natural, pele branca... e tem uma língua que não cabe na boca. Ela sofreu uma pressão infernal lá dentro, sendo chamada de "vergonha da família". Tentaram abusar dela e eu tive que matar um ou dois seminaristas.
Reviro os olhos, mas Ethan não para. Ele despeja os fatos como se estivesse me dando uma surra.
— O Killian tentou intermediar esse acordo quando vocês começaram a subir ao poder, buscando rotas e território. Mas você nem quis ouvir. E o pior: o Dominic falou por vocês naquela época. Ele disse ao meu pai que os Ferraro não queriam saber de esmola e nem prêmio de consolação.
Arqueio uma sobrancelha, surpreso. Essa parte eu não sabia. — O Dom disse isso?
— Disse. E a notícia chegou aos ouvidos do meu pai — Killian intervém, cruzando os braços e me encarando. — Dante usou a sua rejeição de cinco anos atrás para humilhá-la. Disse que ela era uma mercadoria estragada que nem os Ferraro, que na época rastejavam no chão, a queriam. Agora, com essa nova tentativa de aliança em julho, ele perdeu a paciência.
— E o que aconteceu? — pergunto, agora realmente curioso com o nível de podridão da família Moretti.
— Ele tentou vendê-la para um magnata na Suíça, um velho asqueroso do ramo das joias, só pelo dinheiro — Killian explica. — Dante queria se livrar dela de vez.
Solto uma risada seca. Sinto um desconforto no peito, mas meu rosto permanece imóvel. — E ela? O velho morreu e ela está viúva precisando de outro homem agora? — tento adivinhar com escárnio.
— Não — Ethan corta, a voz baixa, quase dolorida. — Ela fugiu. Em julho, no auge das negociações, ela simplesmente desapareceu. Meu pai surtou. Baniu a Antonella da família e jurou que, se ela voltasse, ia apodrecer no convento porque "nenhum homem de valor" a tocaria depois dessa desonra. Eu tentei ir atrás, passei um tempo na Itália e cheguei a encontrá-la, mas ela não aceitou meu dinheiro e desapareceu de novo. O Dante bloqueou tudo. Não posso desafiá-lo abertamente ainda.
— E onde a "santinha" está agora? — pergunto, perdendo um pouco do deboche.
— Eu não faço a mínima ideia — Killian conta, me encarando. — Está desaparecida há dois meses. Sem dinheiro, sem telefone, sem nada. Ela é orgulhosa demais para pedir ajuda, mas vulnerável demais para o que vem por aí. Se alguém a encontrar antes de nós e descobrir quem ela é, ela vira um cadáver ou moeda de troca.
Desenho um círculo nervoso na areia. O descaso está dando lugar a uma irritação tática.
— Então agora a outra parte do plano inclui caçar uma noiva que eu mesmo chutei para fora do tabuleiro há cinco anos? Uma mulher que provavelmente me odeia e me culpa por cada desgraça na vida dela? — Solto um suspiro pesado.
— Exatamente — Killian afirma.
— Que seja. Não me importa se ela não for mais virgem, ou se teve que se vender para sobreviver esses meses na rua. Mas aviso logo: vamos ter que fazer todos os exames nela antes de qualquer coisa. Se esse é o sacrifício que eu tenho que fazer para levar o nome da minha família ao topo? Eu aceito essa desgraça, mas não esperem que eu seja muito gentil ou aja como marido algum dia. Vou comer todas as putas que eu quiser, eu vou ser livre para fazer o que eu quiser.

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