POV/ DOMINIC FERRARO
O silêncio no carro era pior que o som das metralhadora no salão horas antes. Lorenzo dirigia com os nós dos dedos brancos no volante, a mandíbula tão travada que eu podia ouvir o ranger dos dentes dele. Eu estava no banco do carona, esperando ele dizer alguma coisa, me xingar, me mandar a merda, gritar ou qualquer coisa. Mas ele permaneceu calado.
— Você vai me pedir desculpas agora ou vai esperar chegarmos no aeroporto? — perguntei, minha voz saindo como um rosnado seco.
Lorenzo soltou uma risada amarga, sem tirar os olhos da estrada.
— Pedir desculpas, Dominic? Por quê? Por eu quase morrer na sala do Conselho enquanto meu irmão mais velho, o Capo desta família, estava ocupado demais brincando de casinha com uma Lombardi?
— Você não sabe o que aconteceu lá fora, Lorenzo. Você não viu o que ela fez — rebati. No segundo em que as palavras saíram, eu me odiei. Estava defendendo a isca.
— Eu vi o que importa: ela protegeu o esloveno. Se jogou na frente do seu chute por ele. Ela está fodendo com a sua cabeça, Dominic! Você abandonou o posto estratégico por causa de um rabo de saia prateado. Se o Killian não fosse o que é, nós estaríamos em sacos pretos agora. Você colocou a família em segundo lugar. Admita.
— Eu não coloquei ninguém em segundo lugar! Eu limpei o salão, eu garanti o perímetro...
— Você garantiu ela! — Lorenzo gritou, batendo no volante. — Não minta para mim. O plano era você estar comigo. Eu quase morri e ainda tive a cabeça batida no mármore porque o meu reforço resolveu virar herói de uma garota que nos odeia.
O celular de Lorenzo, preso no painel, começou a vibrar. O nome de Cassian brilhou na tela. Lorenzo atendeu e colocou no viva-voz imediatamente.
— Cassian? — Lorenzo chamou, tentando controlar a voz. — Está tudo bem?
Houve um silêncio do outro lado. Apenas uma respiração pesada e irregular.
— Dom? Lorenzo? — A voz do nosso irmão caçula veio fraca. Houve uma pausa longa. — Eu... eu tentei fechar os olhos. Mas eu vejo o rosto dele. Eu vejo o sangue.
— Aconteceu alguma coisa? — quis saber, meu coração apertando. — Alguém entrou aí?
— Não... — Cassian respondeu devagar, as palavras saindo com dificuldade. — Está tudo quieto. Mas eu puxei o gatilho. O som não sai do meu ouvido. Eu sinto que minhas mãos estão sujas, mesmo depois de lavar.
— Escute, Cassian — eu disse, tentando manter a calma. — Tome um chá, tente descansar. Eu já estou saindo daqui, em algumas horas estarei aí com você. Você fez o que precisava ser feito.
Lorenzo aproveitou a deixa, querendo que Cassian confirmasse que Alessia era o problema.
— Cassian... a Alessia fez alguma coisa com você? Ela tentou fugir ou te ameaçar? Tem certeza de que está seguro com ela aí?
Houve outra pausa. Dava para ouvir o som de uma xícara batendo na mesa do outro lado.
— Não. Ela não fez nada ruim. Ela me deu banho... tirou o sangue da minha roupa. Ela fez macarrão. Ela me contou uma história até eu me acalmar um pouco. Ela está sendo... boa.
— Viu? — eu disse para Lorenzo, num sussurro provocador. — Uma mulher perigosa que faz macarrão.
Lorenzo apenas bufou, mas Cassian continuou, a voz ficando um pouco mais firme, mas ainda pausada.
— Eu precisava falar uma coisa. Lorenzo... Dom... a Alessia me protegeu. O Marcellos ia me matar de verdade. Ele colocou a arma na minha testa. Ele disse que eu era um monstro pequeno. Eu achei que ia morrer.
— E o que ela fez, Cassian? — Lorenzo perguntou, agora mais atento.

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