POV/ DOMINIC
— Já tirei ela daquela cela úmida. Levei-a para o quarto lá em cima para ela se limpar. Aquele vestido de noiva é um farol de busca; precisamos dela com roupas normais antes de cruzarmos o setor para a fazenda.
Lorenzo deu um passo à frente, o semblante subitamente pensativo, como se estivesse processando um enigma.
— E como ela reagiu? Gritou? Chorou? — perguntei, sentindo um prazer antecipado, quase extasiado, ao imaginar a imagem dela desmoronando em desespero. — Ela já começou com o teatro de que faz qualquer coisa para eu deixá-la ir?
— Ela é... diferente. — Lorenzo coçou o queixo, o ar de dúvida estampado no rosto. — Não. Nada disso.
— O quê?
— Ela não gritou. Não implorou. Apenas disse que estava com fome.
— Com fome? — Arqueei uma sobrancelha, o sarcasmo cortando o ar. Eu esperava uma mulher em estado de choque catatônico, não uma herdeira preocupada com o próprio estômago.
— Sim. Eu vou providenciar algo na cozinha agora. Um pão, algumas frutas... algo rápido antes de partirmos para a fronteira.
— Não — interrompi. Uma curiosidade sombria, um tipo de fome que não vinha do estômago, começou a queimar no meu peito. — Eu levo. Quero ver essa "estranheza" de perto antes da chamada de vídeo com o pai dela. Quero ver o quanto desse orgulho sobrevive ao cheiro do medo.
Lorenzo apenas assentiu, embora o brilho de incerteza continuasse em seus olhos. Saí do escritório e caminhei até a cozinha com passos pesados. Peguei uma cesta e juntei o que encontrei: pão fresco fiz um sanduíche rápido, algumas frutas e uma faca de lâmina afiada. Eu queria ver se ela teria a mesma coragem de reclamar da comida quando estivesse cara a cara com o monstro que a arrancou do altar.
Caminhei pelo corredor, a cesta pendurada na mão como um acessório incongruente naquele ambiente de guerra. No entanto, a calmaria foi estilhaçada antes que eu chegasse ao destino. Encontrei um dos meus homens guardando a porta do quarto dela com um sorriso cúmplice que me fez ferver.
— O que você está fazendo aqui? — rosnei. Minha voz saiu como um trovão baixo, vibrando nas paredes de pedra.
— O Connor... ele entrou para ajudar com a "limpeza", Dom — o guarda gaguejou, o sorriso morrendo instantaneamente ao ver o abismo nos meus olhos.
Um som de luta abafado e um arquejo desesperado vieram de dentro. O sangue subiu para a minha cabeça não por empatia, eu não possuía tal fraqueza mas por uma fúria possessiva avassaladora. Ninguém toca no que eu marquei. Ninguém usa o que eu pretendo destruir.

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