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Você sempre foi minha romance Capítulo 2

Renata

O vento da noite bateu no meu rosto assim que fechei o portão atrás de mim.

Frio.

Molhado.

Quase cruel.

Mas, pela primeira vez em muito tempo… eu respirei.

A rua estava silenciosa, apenas os postes antigos iluminando o caminho como se assistissem minha fuga em silêncio. Minhas mãos ainda tremiam; eu não sabia se era pela dor, pela raiva ou pela coragem tardia que finalmente tomou conta de mim.

Chamei um carro por aplicativo.

E cada minuto esperando ali, sozinha na calçada, parecia eterno.

Meu celular vibrou.

“Renata, volta pra casa. Vamos conversar.”

Era do meu pai.

Apaguei a mensagem sem responder.

Logo depois veio outra.

“Você está sendo impulsiva.”

Impulsiva.

Era sempre essa palavra. Sempre esse modo de me diminuir, de me calar. Como se o que eu sentia fosse frescura, como se minha dor fosse negociável.

Bloqueei o número.

O carro parou diante de mim, e o motorista me olhou pelo retrovisor com um sorriso educado.

— Boa noite… Renata?

— Sou eu respondi, colocando a mala no banco ao meu lado.

Quando sentei, minhas pernas finalmente cederam e eu senti a onda de choro subir novamente. Mordi o lábio com força para não desabar ali mesmo.

Durante o trajeto, fiquei olhando a cidade passando pela janela. As luzes borradas, meus pensamentos indo e vindo como maré agitada.

A traição.

O sorriso debochado da Patrícia.

O desespero do meu pai.

A indiferença da Juraci.

Tudo rodopiava dentro de mim.

Mas, acima de tudo… uma pergunta latejava:

“Quem sou eu, além do que eles queriam que eu fosse?”

Quando o carro finalmente entrou na rua da minha madrinha, senti o peito apertar. Ali… ali era o último lugar onde alguém genuinamente gostou de mim sem exigir nada em troca.

A casa dela continuava igual: muro baixo, janelas azuis, cheiro de pão vindo da cozinha. Um lugar que parecia respirar acolhimento.

O motorista estacionou.

Quando desci, vi a porta da frente se abrir devagar.

E minha madrinha apareceu com aquele avental florido, o cabelo preso de qualquer jeito, e os olhos cheios de preocupação.

— Renatinha? ela sussurrou, levando a mão ao peito. Meu Deus… o que fizeram com você?

E no instante em que ouvi a voz dela… a muralha que eu tinha construído o dia inteiro desmoronou.

Eu corri até ela.

Ela me abraçou antes que eu pudesse falar qualquer coisa.

E eu chorei.

Chorei como se estivesse vomitando toda a dor que carreguei anos sem perceber.

— Pronto, meu amor… ela murmurou, afagando minhas costas. Agora você está segura. Ninguém aqui vai te ferir.

Segura.

Eu nem sabia como aquela palavra soava mais.

Entramos, ela fechou a porta atrás de mim como quem fecha uma ferida aberta, e me conduziu até a cozinha.

— Senta ela disse. Vou fazer um chá. Você conversa quando quiser… ou não conversa. Só fica. A casa é sua.

E eu sentei.

As mãos ainda tremiam.

O coração ainda sangrava.

Mas, pela primeira vez em muito tempo…

eu não me senti sozinha.

Quando fechei o portão atrás de mim, a única coisa que senti foi o peso da mala e o vazio ficando para trás.

Nenhuma voz me chamando.

Nenhum passo apressado.

Nenhum “filha, espera”.

Nada.

O silêncio doeu mais do que qualquer grito poderia doer.

Caminhei até a calçada com o coração latejando no peito. O vento bateu no meu rosto gelado, cortante mas ainda assim foi mais acolhedor do que o olhar do meu pai.

Peguei o celular para chamar um carro… e notei que não havia nenhuma notificação.

Nenhuma tentativa de me impedir.

Nenhuma pergunta.

Nenhum “você está bem?”.

Jurei para mim mesma que não iria chorar de novo.

Mas chorei.

O carro chegou rápido demais. O motorista saiu e abriu o porta-malas, educado. Eu entreguei a mala e entrei sem dizer uma palavra.

Capítulo 2 1

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