Rennata
Minha madrinha passou o polegar nas minhas lágrimas, como se quisesse apagar cada dor que eu tinha vivido naquele dia. Depois que me abraçou de novo, ela respirou fundo e disse:
— Renata… minha filha… eu não tenho o dinheiro que o seu pai tem. A voz dela era suave, mas firme. Mas eu tenho a minha lanchonete. E, se você quiser, pode vir me ajudar lá.
Eu ergui os olhos, surpresa, ainda soluçando de leve.
— Madrinha…
Ela apertou minhas mãos com carinho.
— Não é muito, eu sei… mas vai te dar um dinheirinho. Vai ajudar nos seus estudos, nas suas coisas. E, principalmente… vai te dar paz. Aqui você não precisa caminhar em cima de cacos de vidro.
Senti o peito tremer, como se uma parte de mim tentasse acreditar que, finalmente, eu tinha para onde ir.
Ela continuou, com os olhos marejados:
— A sua mãe era a minha melhor amiga. Minha irmã de alma. E por ela, Renata… sua voz embargou por ela eu jamais te deixaria sozinha.
Ela pousou a mão no meu rosto, com ternura.
— Você é minha filha também. Eu te amo, minha menina.
Aquela frase me arrancou o ar.
Há quanto tempo eu não ouvia alguém me chamar de “minha filha”… e significar de verdade?
As lágrimas voltaram, mas dessa vez não eram só de dor eram de alívio.
Minha madrinha sorriu, limpando meu rosto como fazia quando eu era pequena.
— O quarto de hóspedes está cheio de caixas, você sabe como eu sou desorganizada pra guardar coisa… — ela riu baixinho, tentando me fazer sorrir também. Mas como já está tarde, eu vou arrumar o sofá. Ele é grande, fofinho. Você vai ficar bem, eu prometo.
Olhei para o sofá na sala. Nunca um lugar tão simples pareceu tão seguro.
— Amanhã ela disse, passando o braço pelos meus ombros a gente arruma o quarto direitinho pra você. Desocupa tudo, lava as cobertas, deixa tudo cheirosinho.
Ela beijou minha têmpora.
— Você vai ter um cantinho seu aqui. Um cantinho só seu, minha filha.
Eu me aninhei no abraço dela.
A madrinha ajeitou o sofá como se estivesse preparando uma cama de princesa. Colocou um lençol limpinho, um cobertor macio e até borrifou um perfume leve de lavanda o mesmo que ela usava quando eu era criança e dormia ali depois das festas de família.
— Pronto, minha filha… ela disse com um sorriso cansado, mas cheio de amor. Se precisar de mim, eu estou no quarto. A porta vai ficar aberta, tá?
Assenti com a cabeça, tentando engolir o nó na garganta.
Ela apagou as luzes da sala, deixando só o abajur aceso. Quando se afastou, senti meu peito se apertar — como se eu estivesse sendo deixada sozinha com todos os meus pensamentos de uma vez.
Deitei devagar.
O sofá realmente era fofinho…
macio…
e estranho.
Estranho porque não era a minha cama.
Não era a minha casa.
E, ao mesmo tempo, era mais acolhedor do que qualquer lugar onde eu tivesse dormido nos últimos anos.
Fechei os olhos.
Mas, assim que a escuridão veio, veio também a cena.
Ricardo.
A Patrícia.
O sorriso cínico dela.
O desespero dele.
A voz do meu pai dizendo que eu precisava pensar no negócio.
A Juraci insinuando que a Patrícia tinha sido “desonrada”.
Meu coração disparou.
Era como se eu estivesse lá de novo, diante da porta encostada, ouvindo aqueles sons, sentindo o chão desaparecer debaixo dos meus pés.
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