POV Isadora
O som dos pneus no asfalto molhado era quase hipnótico. O sol ainda lutava para romper a névoa fina da manhã, e o carro cortava a estrada que levava até a editora Vertigem, o território de Dante, e o meu também.
Desde que ele deixara a empresa do pai, parecia que o peso do mundo havia saído de seus ombros, mas, ao mesmo tempo, um novo tipo de tensão tomara o lugar.
— Está tudo bem? — perguntou, sem desviar o olhar da estrada.
— Sim — sorri para ele.
Ele me lançou um olhar rápido e carregado.
— Raul vai estar lá, não é?
Suspirei. Então era sobre isso.
— Sim, vai. Temos uma reunião com Beatriz para alinhar o início do manuscrito.
— Hm. — O som grave e contido saiu de sua garganta como um trovão abafado. — Só quero entender como esse cara acabou escrevendo com você.
— Ele é um bom roteirista, Dante. — Falei calma, como se explicasse algo simples. — A editora escolheu ele, não eu.
Ele não respondeu. Apenas apertou o volante, o maxilar rígido.
Lá fora, o prédio moderno da Vertigem apareceu, espelhado e elegante, refletindo o céu nublado. Assim que o carro parou, Dante desligou o motor, respirou fundo e virou-se para mim.
— Eu confio em você, Isa. Só não confio no tipo de homem que acha que pode brincar com o passado.
Sorri de leve.
— E eu confio que o tipo de homem que está ao meu lado hoje sabe que o passado não me define mais.
Ele hesitou, então assentiu. — Vamos?
Descemos. O ar da manhã era fresco, e a sensação de estar ali com ele, de mãos dadas, era quase surreal. Por tanto tempo, aquele lugar tinha sido o meu refúgio e agora voltou ao dele também.
No saguão, o recepcionista os cumprimentou com deferência. “Senhor Harrison.” O sobrenome ainda pesava no ar, mesmo que Dante agora tentasse se afastar de tudo o que ele representava.
Subimos juntos até o quarto andar. E foi ali, ao virar o corredor, que o destino resolveu testar minha serenidade.
Raul estava encostado à parede, rindo de algo que Beatriz dizia. Camisa branca dobrada nos cotovelos, pulseira discreta no pulso, o mesmo charme descuidado que sempre o acompanhara. Quando me viu, o sorriso dele suavizou, e algo nos olhos brilhou por um instante.
Mas o olhar dele desviou logo em seguida para Dante. O ar pareceu mudar.
Beatriz foi a primeira a falar:
— Isadora! — O entusiasmo dela quebrou o gelo. — Que bom que chegaram!
— Oi, Bia. — Forcei um sorriso e troquei um breve abraço com ela.
Raul deu um passo à frente.
— Então esse é o famoso Dante Harrison.
Dante estendeu a mão.
— Famoso não, mas sim, sou eu.
O aperto de mãos entre os dois durou um segundo a mais do que deveria. Aquele tipo de segundo que não é medido no relógio, mas no instinto. O olhar de um avaliando o outro, dois homens que não precisavam dizer nada para entender que havia história ali.
Beatriz tentou disfarçar o desconforto.
— Vamos pra sala, gente? Já deixei o material impresso.
Enquanto andávamos pelo corredor de vidro, senti a tensão ao meu lado. Dante caminhava perto demais, e sua mão tocava a minha vez ou outra, como se me ancorasse, ou como se marcasse presença.
Chegamos à sala de reuniões.
Beatriz se sentou à cabeceira, Raul ao lado dela. Eu me acomodei na outra ponta, e Dante ficou de pé por um instante, observando tudo: o mural com capas de livros, os quadros, o logo da Vertigem iluminado.
— O espaço ficou bonito. Gostei da mudança. — comentou ele, com um meio sorriso. — E parece bem organizado.
Raul respondeu: — Tentamos manter assim. Isa é uma das razões disso, aliás.
Olhei de canto pra ele. Beatriz pigarreou, visivelmente tentando manter o profissionalismo.
— Dante, a gente sabe que hoje é um dia importante pra editora. Estamos felizes por você ter voltado oficialmente ao time, Chefe.
— Obrigado, Beatriz. — Ele assentiu. — Eu quero que a Vertigem continue crescendo, mas com valores diferentes.
Raul arqueou uma sobrancelha.
— Valores diferentes?
Dante olhou diretamente pra ele.
— Transparência, confiança. Coisas que nem todo mundo entende, mas eu valorizo.
Silêncio. Beatriz desviou o olhar para o notebook. Eu respirei fundo.
— Acho que o Dante tem uma reunião agora com o financeiro, não é? — Intervi, tentando mudar o foco.
— Tenho, sim. — Ele se aproximou de mim, inclinou-se e, antes que eu pudesse reagir, depositou um beijo lento, possessivo e visivelmente calculado nos meus lábios.
Raul desviou o olhar. Beatriz ficou imóvel.
Quando ele se afastou, seu sussurro foi só pra mim:
— Boa sorte, amor.



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