POV HEITOR
A sala do tribunal parece menor do que eu lembrava. Talvez seja eu que encolhi, diminuí tanto por dentro que qualquer espaço parece grande demais pra mim.
O ar está seco, tenso, pesado… e ninguém me olha como ser humano. Só como um monstro prestes a ser enjaulado. E, honestamente… quem sou eu pra discordar?
Sento. O banco de madeira reclama sob meu peso. A madeira range como se também me julgasse.
Os fotógrafos estão na porta, tentando capturar cada ângulo da minha destruição. E pela primeira vez na vida, não tento parecer forte. Nem digno. Nem homem.
Eu só existo.
O juiz entra. A plateia se cala. E eu sinto meu coração parar um segundo, como se tentasse fugir.
— Iniciamos o julgamento do réu Heitor Montenegro, acusado de duplo homicídio qualificado…
A frase me atravessa. Nada dói mais que ouvir o nome da minha esposa e da minha mãe citado no laudo como vítimas. Vítimas minhas.
O procurador começa a falar, mas meu cérebro zune. Só escuto fragmentos.
“sabotagem”
“adulteração”
“premeditação”
“acesso restrito”
“mensagens deletadas”
“câmeras de segurança”
E então começam a exibir as provas. E é aí que meu corpo inteiro gela.
1. AS CÂMERAS
Um telão se ilumina. A imagem da garagem da mansão aparece. Lá estou eu. Noite anterior ao acidente. Jaqueta escura, passos arrastados, garrafa na mão, depois ferramentas.
O promotor pausa o vídeo bem no momento em que meu rosto, transtornado, olha para a câmera. Quase um pedido silencioso pra ser parado.
— O réu afirma não se lembrar. Mas a imagem fala por si.
A sala toda me atravessa com olhares de nojo. E eu só consigo repetir mentalmente: Eu só queria assustá-las. Eu só queria que parassem de me deixar pra trás. Eu só queria… Nem sei mais o que eu queria.
2. AS FERRAMENTAS
A bancada recebe um saco de evidências. Minhas ferramentas. As que joguei fora.
— Resíduos de fluido de freio. Graxa idêntica à utilizada no modelo do veículo. Impressões digitais do réu. E fragmentos de tinta compatíveis com a lataria raspada manualmente.
Sinto meu estômago virar.
Eu fiz isso. Com minhas mãos. Eu destruí o carro que levava as duas pessoas que, de formas tortas, sempre estiveram ao meu redor.
A plateia cochicha.
“Assassino.”
“Psicopata.”
“Monstro.”
Eu fecho os olhos. Não discordo.
3. AS MENSAGENS APAGADAS
O promotor abre um arquivo recuperado pelo perito digital. Mensagens minhas para um mecânico:
— “Se eu quiser que o carro derrape mais fácil, o que tiro?”
— “Se quiser que o freio demore a responder, existe como?”
— “Só curiosidade.”
A palavra curiosidade ecoa como deboche. Eu sei o que parece. Sei que fui idiota. Sei que fui irresponsável. Sei que joguei fogo na própria vida e ainda soprei a brasa.
O promotor respira fundo.
— O réu apagou essas mensagens, mas nossa equipe as recuperou.
Meu advogado fecha os olhos, derrotado.
4. O RELATÓRIO DO GUINCHO
Um homem é chamado para depor. O mecânico do reboque.
— Eu vi pelo estado do carro… aquilo não foi acidente comum. O freio estava mexido. A curva não explicava o impacto. Parecia sabotagem.
Ele me olha fixo. Como se tentasse entender meu rosto. Entender “o porquê”.
Nem eu sei.
5. TESTEMUNHO DO VIZINHO

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”