POV ISADORA
A manhã estava calma demais e isso já devia ter sido pista suficiente de que alguma merda cósmica estava prestes a cair na minha cabeça.
Eu estava na Vertigem, sentada na salinha de vidro onde Dante gostava de roubar meus cafés, revisando um trecho do livro novo. A bebê dormia no andador portátil, com aquela respiração baixinha que sempre me desmontava por dentro. E Dante, claro, estava no telefone, resolvendo alguma pendência com advogados da Harris– quer dizer, ex-Harrison.
Tudo tão normal que até dava medo.
Foi aí que meu celular vibrou. Primeiro uma notificação. Depois outra. E mais outra. Meu estômago afundou antes mesmo de ver o que era.
Quando cliquei, a tela abriu em manchetes, todas iguais, todas gritadas:
“HEITOR MONTENEGRO É CONDENADO A 35 ANOS DE PRISÃO POR DUAS MORTES.”
A foto vinha logo abaixo. Ele sendo escoltado para fora do tribunal. Cabelos desgrenhados. Olheiras profundas. O rosto…
— Deus do céu — o rosto estava sem vida.
Como se ele já tivesse morrido por dentro e só o corpo estivesse ali, caminhando para cumprir protocolo.
Meu coração congelou. E ao mesmo tempo, um calor estranho subiu pelo peito, uma mistura de choque, tristeza e um alívio pesado que eu toquei com culpa.
Porque a verdade é que eu não desejava o mal dele. Mas desejava… segurança. E finalmente ela existia. O ar ficou mais denso. Minha visão ficou turva. A mão que segurava o celular tremia. Dante percebeu antes de eu chamar.
Ele desligou na hora, caminhou até mim e encostou a mão no meu ombro com aquela calma inquietante dele.
— Amor… o que foi?
Eu só virei a tela pra ele. Ele pousou os olhos. Respirou fundo. E o silêncio dele disse tudo.
Dante nunca comemoraria a queda de alguém, mesmo alguém que tinha tentado destruir a vida dele.
Eu senti um nó na garganta, porque o fim de um ciclo sempre dói, mesmo quando esse ciclo foi um inferno.
— Trinta e cinco anos… — murmurei, como se dizendo em voz alta tornasse real.
Dante se abaixou, ficou na altura dos meus olhos.
— Você está… bem?
A forma como ele perguntou carregava cada cuidado do mundo. Balancei a cabeça, sem conseguir formular nada.
Eu não estava feliz. Nem triste. Era pior: eu estava cheia. Transbordando de coisas contraditórias.mA bebê se mexeu no andador. Aquele som suave cortou meu torpor, trazendo um fiapo de realidade de volta.
— Ele vai passar o resto da vida… pagando,— murmurou Dante, com a voz baixa, firme. Mas não cruel. Ele não tem crueldade em si.
— E eu...— minha voz falhou. — Eu só me sinto… estranha. Como se estivesse enterrando um fantasma.
Dante me puxou para o peito dele. Um abraço lento. Profundo. Aquele tipo de toque que diz: fica, eu te seguro até você lembrar quem você é. E eu deixei meu corpo afundar no dele, porque naquele momento eu precisava de um chão. Precisava de ar. Precisava de algo que não fosse lembrança, passado, medo ou culpa.
— Acabou,— ele sussurrou contra meu cabelo. — Agora acabou de verdade.
Fechei os olhos.
Acabou.
Só que o fim de algo tão grande nunca vem limpo. Vem cheio de ecos, sombras, memórias que ainda procuram lugar pra morrer dentro da gente.

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