POV ISADORA
CINCO ANOS DEPOIS
Cinco anos passam como uma maré que parece preguiçosa, mas quando você olha de novo… o mundo inteiro mudou de lugar.
E, de algum jeito meio milagroso, eu também.
Acordo com o som de pequenos passos apressados correndo pelo corredor, passos que conheço como a batida do meu próprio coração e um grito de guerra infantil que já anuncia o impacto iminente:
— MAMÃÃÃÃE!!!
Me preparo psicologicamente. Não dá tempo.
Sofia voa na cama como um míssil de cinco anos de energia pura. O colchão afunda, Dante resmunga do meu lado, meio afogado no travesseiro, e eu só consigo rir enquanto meu pequeno furacão se j**a no meu colo como se não me visse há semanas, não há… tipo… sete horas.
— Mamãe, mamãe, mamãe, olha! — ela mostra um pedacinho de papel colorido amassado. — Eu fiz um desenho da gente três!
— Três? — pergunto, fingindo surpresa. — Eu, você e quem?
Ela revira os olhos como se eu fosse a pessoa mais lenta do planeta.
— O papai, né! — e puxa o braço de Dante, que finge estar dormindo. — PAPAI! Você tá acordado!
Ele abre um olho. Só um. O suficiente pra me olhar com aquela expressão de “eu te amo, mas por que você não me salvou disso?”.
— Tô, princesa… to-tô sim… — boceja. — Quem precisa ser salvo hoje? Sua mãe? Eu? O planeta?
— Eu! — Sofia declara, cheia de convicção. — Precisa arrumar meu cabelo porque hoje eu vou no balé e eu quero fazer o coque igual da tia da TV!
Eu não consigo segurar. Caio na risada.
— Dante? — chamo com a voz carregada de malícia. — A missão é sua.
Ele me olha indignado.
— Isa… amor da minha vida… eu sei fazer muita coisa. Coque não é uma delas. Nem fisicamente é possível. Você já viu minhas mãos? — ele levanta as mãos enormes, quase cômicas do lado da cabecinha da Sofia.
Ela cruza os bracinhos.
— Papai. Você sempre consegue.
Pronto. Acabou. Ela deu o golpe final: fé inabalável. Ele suspira como quem aceita que o destino acabou de ser decidido.
— Tá. Vem cá, pequena tirana.
Ela grita de alegria e salta da cama, arrastando ele pelo braço e eu fico alguns segundos ali, só observando meu marido tentar domar o cabelo da nossa filha enquanto ela fala sem parar sobre glitter, bailarina, café com chocolate e dinossauros (porque, aparentemente, na mente dela tudo faz sentido junto).
Cinco anos.
Eu ainda não acredito.
Enquanto eles lutam pelo coque perfeito…
Eu me levanto, amarro o robe na cintura e vou até a cozinha. A luz da manhã entra pelas janelas enormes da nossa casa nova, a terceira que compramos em cinco anos, porque aparentemente nós dois somos dois caóticos que seguem o impulso de “e se a gente morasse numa casa com mais árvores, menos escadas, mais janelas, menos janelas, mais silêncio, mais natureza?”.
Essa aqui… essa ficou.
É lar.
Coloco água para ferver e o café pra passar. A rotina é tão simples que chega a ser poética. Depois de tudo o que vivi ou sobrevivi, aprender a existir num mundo onde nada explode é uma vitória diária.
A televisão está ligada, baixinho, no noticiário da manhã. Eu nem presto muita atenção, até ouvir meu nome.
— …e a CEO da Ferraz Corp, Isadora Ferraz, anunciou ontem o novo programa de incentivo…
Desligo antes que comece matéria antiga sobre o passado. Já cansei de ver jornalistas tentando romantizar meu trauma ou transformar minha competência em narrativa dramática.
Sim, eu virei CEO. Sim, a empresa é minha. Sim, eu comprei ações escondida por anos e acabei assumindo depois do colapso dos Montenegro. Sim, eu transformei o que era um território de medo numa empresa de gente.
Mas nada disso saiu da minha boca por ego. Eu só fiz o que precisava ser feito.
Recolho três canecas, duas normais e uma rosa com unicórnio para a rainha da casa e deixo tudo pronto na mesa quando Dante aparece na porta, derrotado.
— Isa. Ajuda. — Ele aponta para a cabeça da Sofia.
Eu mordo o lábio pra não rir. O coque… meu Deus… o coque está parecendo uma tentativa falha de construir uma represa.
— Papai… — Sofia suspira, decepcionada.
— Eu tentei, princesa! Mas seu cabelo é muito… vivo.
Eu me aproximo, afago o rosto dele, e ajeito o coque em dois minutos. Sofia sai pulando feliz. Dante me olha como se eu fosse uma espécie de entidade divina.
— Nunca vou competir com isso. — ele diz, meio rindo, meio sério.
— Não precisa competir comigo. — eu respondo, puxando ele pela camisa. — A gente j**a no mesmo time.
Ele me beija o topo da cabeça. Aquela paz… aquele toque… cinco anos depois e meu corpo ainda acende.
A vida é outra. Eu também.
Depois do café, arrumamos Sofia para a aula e a deixamos na escola. Ela dá tchau como se fosse a criatura mais corajosa do universo e talvez seja.
No carro, Dante segura minha mão enquanto dirige.
— Três reuniões hoje — ele comenta. — Raul e Beatriz querem atualizar a gente sobre o livro novo. Ah, e Olívia mandou mensagem. Quer falar com você.
— Sobre o casamento? — pergunto.
Ele assente.
— Ela tá surtando com flores. Disse que você é a única pessoa que consegue fazer ela não querer assassinar o decorador.
Eu rio.
— Para isso serve a melhor amiga. Impedir homicídios florais.
Ele aperta minha mão.
— Eu gosto do nosso agora, Isa.
Eu olho para ele. Para o homem que segurou minha alma com tanta delicadeza que ela aprendeu a não sentir medo.
— Eu também gosto. — sussurro.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”