POV Isadora Ferraz
O dia mal tinha começado quando o interfone tocou.
Célia.
Minha sogra entrou como um furacão vestida de missa. Trazia um terço numa mão, um livrinho de oracões na outra e um olhar decidido. Não me deu bom dia. Não pediu para entrar. Simplesmente passou pela porta como se ainda mandasse em tudo, inclusive em mim.
— Se vista. Vamos sair. — ordenou.
— Pra onde? — perguntei, ainda com a caneca de chá quente nas mãos.
— Resolver o que você destruiu. Agora.
Pensei em questionar. Pensei em trancar a porta. Mas alguma parte cansada em mim apenas obedeceu. Talvez fosse a vontade de crer que, finalmente, ela me levaria pra encontrar Heitor. Que, de alguma forma torta, estavam prontos para conversar.
Me vesti rápido, coloquei um casaco leve e entrei no carro sem mais perguntas.
Mas não fomos à casa de Heitor.
Fomos à igreja.
Quando estacionei, o coração gelou. As portas de madeira antiga, o vitral colorido, o som de um órgão tocando ao fundo. Tudo me pareceu um cenário que não combinava com meu momento.
Ela me puxou pelo braço, ignorando meus protestos.
— Célia, o que você está fazendo?
— Milagres existem, Isadora. Mas é preciso se arrepender. É preciso orar. Você vai pedir perdão pelos seus pecados. Vai limpar seu ventre da rebelião.
— Que rebelião?
Mas ela não respondeu. Me empurrou até o altar. Um padre se aproximou, chamando pela família Montenegro.
Ela ajoelhou.
E me obrigou a ajoelhar também.
Eu, ali, diante do altar, sentindo o cheiro de incenso e hipocrisia, ouvi minha sogra rezar em voz alta:
— Senhor, cura o ventre da minha nora. Purifica sua alma. Liberta ela da dúvida, da frieza, da infertilidade.
Eu tremia.
A vergonha, o horror, a dor. Tudo pulsando nas têmperas.
E então, no meio daquela farsa piedosa, levantei o rosto e disse:
— Célia... o problema nunca foi comigo.
Ela parou.
— Como é?
Eu me levantei. Ajoelhar já não era mais uma opção. Não com tanto sangue na boca.
— Heitor me traiu.
Silêncio.
— Com a Elena. Sua queridinha. Sua editora prodígio. E ela está grávida.
O livrinho de orações caiu no colo dela como um julgamento. O rosto dela empalideceu, a mão apertou o terço como se fosse uma arma.
— Grávida... GRÁVIDA!?
Ela se levantou de sóbito, como se estivesse chocada com esse escândalo. Não disse nada. Apenas saiu, os saltos ecoando pelo corredor da igreja como tiros abafados.
Fiquei ali por alguns segundos. Sentindo o peso de sete anos desabar dos meus ombros.
Me recompus. Respirei fundo e fui embora.
***
No ínicio da tarde, fui a entrevista.
Entrei na recepção com o coração batendo na garganta. O prédio era alto, limpo, imponente. É o tipo de lugar onde pessoas importantes sorriem com dentes caros e trocam cafés por contratos.
O nome da editora estava em dourado na parede: Vertigem.
Tentei manter a postura. O rosto doía, mas o corretivo escondia. Mais ou menos.
Fui chamada. Me conduziram por um corredor silencioso até uma sala de vidro.
E quando a porta se abriu, lá estava ele.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”