POV Isadora Ferraz
O chão desapareceu.
— Isso é... um delírio — sussurrei, sem conseguir respirar. — Você quer que eu cuide da amante do meu marido?
— Ela não é amante. É mãe do futuro Montenegro. Isso te coloca em segundo plano, mas ainda te mantém na família. Se você se comportar. Se cuidar bem dela, pode continuar como esposa oficial. Afinal, imagem é tudo.
Olhei pro Heitor.
Ele não disse nada.
Nem um olhar.
Nem um protesto.
Covarde até o fim.
— Eu sou um ser humano. Não um adorno social — falei, com os olhos marejados. — Eu não vou compactuar com isso.
Célia se levantou.
— Então está fora. Hoje mesmo. Arrume suas coisas. Seus cartões já foram bloqueados. Você vai sair daqui com a roupa do corpo se quiser continuar com esse teatro de mártir.
Elena sorriu.
Aquela curva disfarçada de vitória.
Como se eu tivesse perdido uma guerra que nem sabia que estava lutando.
Eu não chorei.
Não ali.
Não na frente deles.
Só encarei aquela mesa...
Aquela mesa onde servi jantares por sete anos.
Onde me sentei esperando amor, esperando futuro.
E vi que, no fim, eu era só um talher a mais.
Desnecessário.
Descartável.
Virei as costas.
Sem prato.
Sem cadeira.
Sem lar.
Mas com algo que ninguém mais ali tinha:
A verdade.
Me recusaram tudo.
Até o direito de existir sob o mesmo teto em que me anulei por sete anos.
Eu disse “não”.
Simples. Sem gritos, sem cena. Apenas um “não” atravessado na garganta como espinho.
Célia arregalou os olhos como se eu tivesse cuspido na mesa de jantar de cristal.
— Não? — ela repetiu, como se a palavra fosse estrangeira.
— Eu não vou cuidar da amante do meu marido. Não vou cozinhar pra ela. Não vou servi-la enquanto carrega um filho que deveria ter sido meu. Isso é doentio.
Heitor se manteve calado. Nem um pingo de vergonha. Parecia um garoto mimado esperando que a mãezinha resolvesse tudo.
Foi quando ela sorriu.
— Então está feito. Você está fora. De tudo. Da casa, da conta, da família. Espero que tenha um lugar para ir, Isadora.
— Tenho. Qualquer lugar é melhor que essa prisão social que vocês chamam de lar.
A serviçal, que me víra passar os últimos sete natais fingindo felicidade, apareceu na porta da sala com os olhos baixos.
— Senhora, a mala dela já está pronta.
Mala.
Singular.
Um pedaço de mim resumido a um retângulo de couro com rodinhas.
— Não se incomode em voltar para buscar o resto. O que ficou, é nosso agora.
— Como um furto autorizado? — retruquei, sorrindo com amargura.
— Como uma limpeza. Sua presença era poeira.
Meu cartão recusou no Uber.
O de crédito.
O de débito.
Até o do mercado.
Ela não estava blefando.
Célia me apagou do sistema como quem deleta um e-mail incômodo.
No saguão do prédio, sentei na mala.
Como mendiga de mim mesma.
O porteiro não ousou me encarar. Mas vi nos olhos dele o julgamento silencioso de quem acredita na história contada pelos mais ricos.
Peguei o celular. Digitando com os dedos trêmulos:
Olívia, me ajuda.
Ela respondeu em menos de um minuto:
Olívia me puxou pra um abraço forte.
— Nunca mais. — ela disse, como promessa. — Nunca mais você vai precisar pedir pra existir.
Fiquei em silêncio. Olhando o teto. Ouvindo o barulho da cidade que não dorme.
E ali, naquele quarto apertado, com os olhos inchados e o coração destruído, percebi:
Eu ainda estava viva. E quem está vivo, pode revidar.
***
No dia seguinte, vesti minha roupa mais neutra. Um blazer antigo, uma calça de alfaiataria que não via a luz do dia desde que eu ainda acreditava em futuros plenos. Não era sobre impressão. Era sobre dignidade. Ou o que restava dela.
Cheguei à nova editora antes da hora. O recepcionista sorriu com simpatia profissional e me indicou o andar. Eu subi com as pernas bambas, não pelo salto, mas pelo medo de que até isso me fosse tirado também.
Quando a porta se abriu, lá estava ele. Dante. De camisa clara, mangas dobradas, a barba por fazer. Aquele tipo de homem que não precisava tentar nada para ser notado.
Ele levantou os olhos do computador e sorriu.
— Isadora. Que bom te ver.
Eu tentei sorrir de volta, mas algo em mim ainda doía demais.
— Pode sentar. Quer água? Café?
— Só um pouco de ar já ajuda.
Ele riu baixo, respeitando meu limite.
Conversamos sobre o trabalho, as propostas editoriais, os planos para minha atuação. Ele falou com empolgação. Eu escutei com atenção. Até que, no fim, engoli seco e soltei:
— Dante, eu... preciso pedir algo. Algo delicado.
Ele parou. Fechou o notebook devagar.
— Claro. Pode falar.
— Eu fui expulsa de casa. Literalmente. Meus cartões foram bloqueados. Estou morando provisoriamente com uma amiga. E... eu preciso de um adiantamento. Nem que seja pequeno. O suficiente pra respirar esse mês.
Ele me olhou por alguns segundos. Longos. Sem pena. Mas com algo mais raro: respeito.
— Você não precisa se justificar. Aconteceu. E você está aqui, tentando de novo. Isso é mais do que muita gente faria.
Senti os olhos arderem. Mas não deixei a lágrima cair.
— O financeiro vai entrar em contato ainda hoje. Vamos resolver isso.
Agradeci com a cabeça.
— E, Isadora...
Levantei o rosto.
— Não é caridade. É aposta.
Sorri. Pela primeira vez em dias, sorri com o peito.
Talvez, em meio aos escombros, eu tivesse encontrado uma porta aberta. E uma voz que não me mandava calar. Mas escrever.

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