Michael não estava preparado para o chute de Athena. O pé dela acertou em cheio o peito dele.
Sempre presumira que ela fosse uma mulher frágil, incapaz de muita força. Ainda assim, aquele único chute o fez cambalear dois passos para trás.
O peito doía de leve, mas a dor mais funda estava no coração.
No passado, Athena lhe sorria todos os dias e fazia de tudo para agradá-lo. Agora, porém, ela o fitava com pura indiferença gelada.
“Atheny.” O coração de Michael apertou, amargo, enquanto ele se esforçava para chamá-la pelo nome.
Seu olhar sobre Athena estava carregado de dor e incredulidade.
Se, três anos atrás, ele tivesse lhe dado um mínimo de calor, ela teria ficado radiante. Agora, tudo havia mudado. O passado ficara para trás.
Ele a encarou, o ferimento estampado no rosto; mas, quando Athena ouviu-o chamá-la de “Atheny”, sentiu apenas repulsa.
Quando ela o amava, ele a desprezava. Agora que já não o amava, ele a perseguia como uma sombra. Que ironia.
Athena desceu da carruagem sem lhe dirigir um olhar e seguiu em direção à propriedade do duque.
“Athena”, chamou Michael, tomado de pânico quando ela o ignorou. Deu um passo à frente, pronto para barrar-lhe o caminho.
Mas Athena subitamente se voltou. Seus olhos, completamente desprovidos de calor, o congelaram no lugar.
O peito dela subia e descia em ondas violentas de fúria. A repulsa era verdadeira.
Para garantir que ele não a importunasse mais, disse, num tom plano: “Em breve vou me casar na família McGee. Você vai se casar com Willow. Tudo está acontecendo exatamente como você queria. Então, por que ainda se agarra a mim?”
Michael franziu levemente a testa. “Como eu queria?”
Os olhos dele se arregalaram um pouco antes que a compreensão lhe caísse como um peso. Ela falava da troca de casamentos.
Os olhos de Michael se anuviaram de tristeza, cintilando de leve sob a luz do lampião.
Ele não desviou de Athena. A voz saiu baixa e tensa quando disse: “Isso nunca foi o que eu quis.”
“Mas você também não impediu, não foi?” Athena não pretendia falar muito com ele hoje, mas, já que estavam ali, achou melhor cortar o laço de vez.
Ela queria pôr fim ao anseio dele e encontrar paz para si mesma.
Além disso, precisava dizer que nunca lhe ficou devendo nada.
Respirou fundo e disse: “Você não faz nada e ainda se porta como a vítima. Devia saber que sempre fui eu a ferida, a que não tinha escolha. Michael, você e eu… estamos empatados.”
A cabeça de Michael se ergueu de súbito para encará-la. Mas tudo que viu nos olhos dela foi gelo, e seu coração pareceu rasgar-se em dois.
“Empatados?” repetiu.
Ele não queria empatar. Queria continuar enredado nela, mesmo que ela o odiasse.
“Eu não quero isso”, murmurou.
Athena mal podia acreditar no que ouvia. Falar com ele era como falar com uma parede.
Ela se virou para ir embora sem dizer mais nada.
De repente, Michael agarrou o braço de Athena.
Trina correu para intervir, mas Michael sacudiu o braço e a lançou para o lado.
“Solte.” Athena fervia de raiva. Puxou o braço com força, mas o aperto de ferro dele não cedeu.
Os olhos de Michael cravaram-se nela. “Eu nunca vou soltar.”
A loucura e a obsessão em seu olhar fizeram um arrepio percorrer a espinha dela. Quando pensou que ele faria algo insano, ele de súbito a soltou e virou-se, afastando-se a passos largos.
“Minha lady!” Trina se levantou às pressas e correu até Athena. “A senhora está bem?”
O rosto de Athena empalidecera. Normalmente serena, agora estava visivelmente abalada.
Ela assentiu, rígida. “Estou bem.”
Esfregando as têmporas doloridas, Athena se lembrou do assunto que Michael quase a fizera esquecer.
A pilha de livros era espessa. Depois de folhear algumas páginas, sua cabeça começou a girar.
Ela mordeu o lábio, frustrada, e lançou um olhar hesitante para Trina.
Trina perguntou, cautelosa: “Quer que eu ajude a revisar?”
Athena esboçou um sorriso torto. “Números não são o meu forte.”
Sempre mergulhara na medicina, sem nunca tocar nesse tipo de coisa.
Trina deu uma risadinha. “Se não se importar que eu seja um pouco lenta, terei prazer em ajudar.”
Os olhos de Athena se arregalaram. “Você entende de contabilidade?”
Trina explicou: “Lady Margaret teve a gentileza de me ensinar. Além disso, também sei bordado, arranjo de flores. Um pouco de tudo.”
Athena sentiu como se tivesse descoberto um tesouro. Empurrou os livros para ela de imediato. “Trina, vou contar com você.”
“Sim. Vou fazer o meu melhor.” Trina os recebeu radiante, o coração pulsando de orgulho.
Para Athena confiar a ela algo tão importante significava que confiava de verdade.
Enquanto isso, Athena não pôde deixar de pensar em Margaret.
Primeiro, Margaret lhe enviara Trina; depois, presenteou-a com lojas e propriedades. Ela vinha traçando esse caminho para Athena o tempo todo.
Enquanto Athena beliscava uns doces, Trina avançava pelos livros-caixa.
Levaria três ou quatro dias para terminar a organização.
Sentindo-se um pouco inquieta, Athena se levantou.
Fazia dias que não ia à residência da família McGee. Estava na hora de verificar se Ray havia voltado.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Ascensão da Menina Indesejada