Ao voltar para a Ala Flor-de-Neve, Athena continuou inquieta. Por alguma razão, os gritos desesperados daquela mulher ecoavam sem parar em sua mente.
Ela ficou sentada, perdida em pensamentos, imóvel por duas horas inteiras.
Trina trouxe uma bebida quente, colocou-a ao lado dela e disse baixinho: "Senhorita, tome algo para se acalmar."
Athena murmurou, como se por um instante tivesse se ausentado de si.
Fazia uma eternidade que não tomava aquilo; quando vivia com a família Monson, bebia com frequência.
Quando criança, sofria abusos constantes e era atormentada por pesadelos.
Eloise mandava os criados prepararem essa bebida para ela.
Mas, sempre que conseguia se sentar um pouco, logo precisava correr para cuidar de Willow, cuja saúde era frágil.
Ao ver a bebida de novo, Athena ficou um pouco absorta.
"Por que você fez isso para mim?" perguntou Athena.
Trina respondeu, nervosa: "Hoje a senhorita quase caiu no rio. Imaginei que tivesse levado um susto e precisasse de algo para acalmar os nervos."
Com isso, Trina se atrapalhou: "Se não gostou, não tomo mais decisões por conta própria."
Quando ia retirar o chá, Athena segurou de leve seu braço. "Não, eu realmente gostei."
Ela esboçou para Trina um sorriso mínimo, quase imperceptível, e então ergueu a xícara, sorvendo o chá devagar.
A bebida estava quente e, enquanto descia, o calor parecia derreter o gelo no coração enregelado de Athena.
Até sua criada sabia cuidar dela, enquanto aqueles chamados familiares só a culpavam e a usavam.
O coração era um redemoinho de emoções. Olhando para aquela “casa” fria, ela firmou a decisão de ir embora dali.
No dia seguinte, Athena foi visitar Margaret.
Depois de um período de tratamento, a saúde de Margaret havia se estabilizado aos poucos.
Já não parecia frágil nem doente; as faces estavam coradas e viçosas. Quando Athena chegou, Margaret brincava com um pequinês branco.
O cãozinho, redondo e alvo como um floco de neve, estava agachado a seus pés.
Ele arranhava a barra da calça dela com as patinhas, fazendo Margaret explodir numa risada franca.
Ela pegou um pedacinho de carne seca e o ofereceu ao cão: "Lucky, aqui tem um agrado para você."
Depois de ganhar o petisco, o filhote ainda fez uma pose de pedir com as patinhas para Margaret, que riu tanto que mal conseguia fechar a boca.
Ao ver como Margaret havia melhorado, Athena não conteve um sorriso.
Seus olhos se curvaram como luas crescentes e covinhas suaves despontaram nas faces, fazendo-a parecer exatamente como antes.
"Athena, que bom que veio." Margaret acenou para ela. Athena se aproximou e sentou ao lado, perguntando, curiosa: "De onde veio esse filhotinho?"
Margaret riu: "Aquele rapaz Osborne mandou para me alegrar. É bem atencioso."
‘Então foi Michael quem enviou…’ O sorriso de Athena murchou um pouco.
Percebendo a reação, Margaret deu um tapinha tranquilizador na mão dela e disse em tom de brincadeira: "Soube que vocês saíram juntos ontem?"
Quando eram crianças, Michael praticamente crescera na casa dos Monson, comendo e dormindo ao lado de Athena e dos irmãos.
Margaret há muito o considerava como neto.
Ela viu Michael crescer e, naturalmente, ele a via como avó também.
Athena sentiu gratidão por ele ter encontrado algo que animasse Margaret.
‘Pelo menos, quando eu for embora, ela não ficará só’, pensou Athena.
Para não aborrecer Margaret, Athena assentiu e disse: "Eu estava com o sr. Mcgee, junto com outros."
Por “outros”, referia-se a Michael, Willow e Nicolas.
Ainda assim, seus olhos ficaram presos em Lucky, fitando-o com um medo evidente.
‘Que estranho’, pensou Athena, ‘é só um filhote, por que tanto medo?’
Nesse momento, Lucky latiu algumas vezes para Willow, como se quisesse ameaçá-la.
Parecia que estava querendo bancar o valente.
Mas Lucky tinha só três meses, e seus latidos de filhote eram suaves e inofensivos, incapazes de assustar alguém de verdade.
Mesmo assim, Willow ficou visivelmente apavorada; o rosto empalideceu e ela se escondeu atrás de Eloise.
O sorriso de Eloise ficou rígido ao ver Lucky. "Ora, de onde surgiu esse filhotinho?" perguntou, protegendo Willow como uma galinha-choca.
A cena pareceu a Athena um tanto ridícula.
Athena pegou Lucky no colo e o colocou no próprio regaço, afagando de leve a cabecinha dele. Disse, baixinho: "Quieto."
Era como se Lucky a entendesse: ele se aquietou na hora e ficou paradinho.
Margaret, porém, não deu a menor importância. Apontou para Lucky e, rindo, comentou: "Esse pequenino sabe mesmo medir o ambiente. Com meu respaldo, fica todo valente; será que esse desdentado pensa que é um tigre?"
As palavras de Margaret deixaram o clima mais leve.
Notando o carinho de Margaret por Lucky, Eloise forçou um sorriso: "Com um companheirinho desses, a senhora não deve se entediar nunca."
"Lucky conquistou meu coração", disse Margaret, estendendo os braços. Athena passou Lucky para ela, e Margaret o aninhou junto ao peito.
Acariciou o pelo com delicadeza, e Lucky se aconchegou nos braços dela, adormecendo em pouco tempo.
Depois de conversar com Margaret sobre assuntos do dia a dia, Eloise tocou no tema do casamento de Willow.
Disse: "A família Osborne confirmou. Eles virão fazer o pedido em dois dias, e o casamento está marcado para o dia 28 do mês que vem. Mas há algo que preciso discutir com a senhora, mãe, e com Athena."
Ao falar, uma hesitação despontou no rosto de Eloise, como se o assunto fosse difícil de trazer à tona.

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