“Não, não quero ouvir. Vai embora.” Antes que Atena respondesse, Ray se enfiou debaixo do edredom, a voz abafada. Ele parecia um filhote ferido: ansiava por consolo, mas morria de medo de ser rejeitado.
A voz de Atena permaneceu firme. “Lembre-se disto: você é o Ray e, não importa o que aconteça, eu sempre vou amar você.”
Cicatrizar leva tempo — tanto para os ferimentos do corpo quanto para as marcas da alma. Para sair daquela escuridão e romper as barreiras do coração, só Ray podia ser o próprio salvador.
Atena se virou e foi embora, acreditando que ele acabaria enfrentando aquilo.
A porta se fechou suavemente atrás dela. Da cama, vieram soluços contidos, de um homem tentando abafar a dor.
Assim que Atena passou pelo portão do pátio, avistou Gale correndo em sua direção. O rosto de Gale ardia de raiva, mas os olhos denunciavam inquietação.
Ao ver Atena, Gale estacou. O que restou ali foi apenas a angústia crua de uma mãe pelo filho. “O-o Ray está bem?”, perguntou, com a voz trêmula.
Atena assentiu de leve. “Agora ele está.”
Gale soltou um suspiro de alívio e desabou em lágrimas. “A culpa é minha. Não consegui protegê-lo e deixei aquele desgraçado machucá-lo de novo.”
O desgraçado a quem se referia era Wade. Tanto Gale quanto Ray o odiavam até o osso. E, ainda assim, nada podiam contra ele.
Atena hesitou por um instante, depois se aproximou e perguntou: “Wade tem a ver com os ferimentos do Ray?”
O rosto de Gale empalideceu, os olhos fugidios enquanto gaguejava: “N-não, de jeito nenhum.”
“Há coisas que inevitavelmente vou descobrir”, disse Atena, grave. “Para ajudar alguém a se recompor, preciso chegar à raiz. Machucados do corpo se consertam; os da alma são muito mais difíceis. A senhora entende isso, Vossa Graça.”
Gale cambaleou de leve, a testa profundamente franzida. O conflito na expressão mostrava que ela ponderava se devia ou não contar a verdade a Atena.
“Se vou ser a esposa dele, os inimigos dele também são meus”, afirmou Atena, numa nova tentativa de persuadi-la.
Os olhos de Gale estavam ruborizados. Mordeu o lábio e ergueu a mão devagar. “Dispensados.”
Num instante, todos os criados desapareceram sem deixar rastro.
Gale conduziu Atena ao jardim. Depois de inspirar fundo para se recompor, enfim falou, a voz trêmula de raiva contida: “Cada ferida no Ray foi obra daquele maldito Wade.”
Atena já havia juntado algumas peças e assentiu. “Como, exatamente, ele se machucou?”
Gale silenciou por um momento e, por fim, sussurrou: “Naquela época, Ray tinha só doze anos.”
O coração de Atena deu um pulso. Aos doze, Ray deixara a Cidade de Pidence, seguindo Gale para Athkar.
O rosto de Gale se retorceu de ódio. “Aquele canalha do Wade atraiu o Ray para fora da cidade, o que acabou levando ao sequestro por bandidos. Quando o resgatamos, ele estava irreconhecível, de tanta tortura que tinha sofrido.”
Nesse ponto, Gale levou as mãos trêmulas à boca, os ombros sacudindo com o choro que tentava conter.
Sempre que fechava os olhos, a cena horrenda se repetia — Ray, um amontoado de carne viva, coberto de sangue.
“Não havia um palmo de pele ilesa no corpo dele. Era só um borrão ensanguentado; nem o rosto dava para distinguir.” A voz de Gale vacilou, subjugada pela emoção.
Para uma Duquesa altiva chegar a esse estado, era prova de quão graves tinham sido as feridas de Ray.
Atena não suportou fazê-la reviver aquilo. Abraçou com cuidado a duquesa em pranto e sussurrou, em tom de promessa: “Já passou. Eu juro que ninguém vai machucar o Ray de novo.”
Gale desabou no ombro de Atena, chorando sem controle. “Ray é um menino tão bom. Não paro de pensar em matar aquela mulher e o filho dela. A gente até fugiu para a Cidade de Pidence, por que eles não nos deixam em paz? Por quê?”
O peito de Atena apertou ao vê-la chorar em desespero.
O poder real na família Mcgee estava todo nas mãos do pai de Ray. Quanto a Gale e Ray, fora a riqueza, quase não tinham influência alguma.
Ao avistar Atena, apressou-se em vir até ela, fez uma mesura e disse, respeitoso: “Lady Atena, estou aqui para escoltá-la ao Solar Xander.”
“Dê-me só um instante. Preciso voltar e pegar o remédio”, disse Atena, em tom de desculpa, notando pelo cansaço do cocheiro que ele devia estar esperando havia muito tempo.
O cocheiro inclinou a cabeça, respeitoso. “Como desejar, Lady Atena.”
Atena correu até seus aposentos, pegou as ervas medicinais já preparadas e voltou às pressas.
Ao sair, avistou Matthew ao longe, apoiado em um criado enquanto passeava pelo pátio.
Assim que viu Atena, Matthew saltou como gato escaldado. Apontando para ela, berrou: “Atena. Pare aí mesmo.”
Atena não diminuiu o passo; um meio sorriso gelado curvou seus lábios. “Qual é, Matthew? Não comeu terra o bastante? Ou ainda está com apetite para rato? Eu avisei para não se meter comigo de novo.
Se me importunar outra vez, comer terra vai ser o menor dos seus problemas.”
Matthew não quis ouvir. Por estar na propriedade do duque, presumiu que Atena não se atreveria a revidar ali.
“Hoje eu acerto essa conta.” Ele bloqueou o caminho dela, a voz escorrendo veneno enquanto rangia os dentes. E ergueu a mão para lhe dar um tapa.
Trina interveio, afiada: “Senhor Monson, o Príncipe Xander aguarda Lady Atena. O senhor ousaria encostar um dedo nela?”
Matthew ficou atônito. “P-príncipe Xander?”, gaguejou.
Demorou um momento para lembrar que Atena ia ao Solar Xander a cada cinco dias para ensinar bordado.
“Se eu machucá-la agora, posso acabar enfurecendo Sua Alteza”, pensou, sentindo um arrepio na espinha.
Com uma careta, Matthew baixou o braço e lançou a Atena um olhar carregado de veneno. “Muito bem. Eu acerto com você quando voltar. Pode esperar, Atena — ainda vou transformar a sua vida num inferno.”

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