ADRIANO
Eu nunca dirigi tão rápido na minha vida. Ultrapassei carros, desobedeci ao sinal e quase atropelei pessoas.
Quando fiz a curva na esquina da rua de Marja, vi as luzes vermelhas e azuis piscando como se o mundo estivesse em alerta. A casa dela estava cercada por viaturas. Meu coração despencou.
— Não… não… não… — eu repetia, ainda com o carro em movimento.
Mal esperei parar direito. Saltei antes mesmo de fechar a porta, correndo em direção à multidão de policiais. Minha visão estava turva. O ar não entrava direito nos pulmões.
Naquele momento, a porta da casa se abriu e dois socorristas saíram empurrando uma maca. Sobre a maca estava Marja. Pálida. Pequena demais. Inerte demais.
— MARJA! — eu gritei, a voz rasgando minha garganta.
Um policial tentou me segurar.
— Senhor, afaste-se
— Ela é minha mulher! — quase empurrei o homem. — O que aconteceu? Ela está viva? Ela está respirando?
Um dos paramédicos respondeu enquanto ajustava o soro:
— Está viva. Mas inconsciente e muito fraca. Precisamos ir agora.
— E o bebê?
— Parece estar bem. Mas precisamos ter certeza.
Eu entrei na ambulância sem pedir permissão.
— Senhor!
— Eu vou com ela — falei com firmeza.
Sentei-me ao lado da maca. Segurei a mão dela.
Estava gelada.
— Amor… — minha voz saiu quebrada. — Eu estou aqui. Eu cheguei.
Ela não me ouvia.
A ambulância arrancou. O som da sirene parecia atravessar meus ossos. Eu só conseguia olhar para a barriga dela. Para o nosso bebê.
Eu já tinha perdido uma vez. Eu não ia suportar perder de novo.
Assim que a ambulância chegou no hospital, levaram Marja direto para a emergência. As portas se fecharam na minha cara. Fiquei sozinho no corredor branco, iluminado demais, frio demais.
Minhas mãos não paravam quietas. Eu nem percebi quando comecei a tremer.
Uma enfermeira passou.
— Ela… ela está grávida — falei, como se aquilo pudesse ajudar em alguma coisa. — O bebê… por favor…
— A equipe já foi informada, senhor. Vamos fazer o possível.
Fazer o possível. Eu odeio essa frase.
Sentei numa cadeira na sala de espera. O relógio na parede parecia zombar de mim. Cada segundo era um golpe. As horas passaram. Ou talvez tenham sido minutos. Eu não sei. O tempo perdeu o sentido.
Até que um médico apareceu na porta da emergência.
— Senhor Adriano Pinheiro?
Eu me levantei tão rápido que quase tropecei.
— Sou eu.
Ele era um homem de meia-idade, olhar sério demais para ser tranquilizador.
— Poderia me acompanhar, por favor?
Aquelas palavras me gelaram por dentro. “Acompanhar”. Nunca é uma boa palavra.
Entramos numa sala pequena, com uma mesa, duas cadeiras e um silêncio pesado.
— Pode se sentar.
Eu não queria sentar. Sentar parecia aceitar que algo estava errado.
Mas eu sentei.
— Doutor… — minha voz saiu rouca. — Eles estão bem?
Ele parou, como se estivesse me olhando em câmera lenta. E naquele instante eu soube que minha vida estava prestes a mudar. De novo.
— No momento, a mãe e o bebê estão estáveis. Não houve machucados em relação a esta situação que acabou de acontecer. Mas...
— Mas... — eu estava quase enfartando.
— Mas durante os exames identificamos algo que precisa ser investigado com bastante cautela e muita urgência.
Meu coração começou a bater nos ouvidos.
— O quê?
Ele me olhou diretamente.
— A sua esposa tem um tumor no útero. E ele é grande. Com possibilidades de ser maligno.
O mundo ficou em silêncio.
Eu ouvi a frase, mas ela não fez sentido.
— Tumor! E pode ser maligno! — repeti.
— Sim. Ainda precisamos determinar o tamanho exato e a gravidade. Mas dependendo do estágio… pode comprometer a vida dela e a do bebê.
Tentei falar. Precisava saber.
— Eles podem...
Não consegui terminar a frase. O médico completou meu pensamento:
— Sendo maligno, sim. Pode ser fatal para os dois.


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