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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 110

ADRIANO

Eu nunca dirigi tão rápido na minha vida. Ultrapassei carros, desobedeci ao sinal e quase atropelei pessoas.

Quando fiz a curva na esquina da rua de Marja, vi as luzes vermelhas e azuis piscando como se o mundo estivesse em alerta. A casa dela estava cercada por viaturas. Meu coração despencou.

— Não… não… não… — eu repetia, ainda com o carro em movimento.

Mal esperei parar direito. Saltei antes mesmo de fechar a porta, correndo em direção à multidão de policiais. Minha visão estava turva. O ar não entrava direito nos pulmões.

Naquele momento, a porta da casa se abriu e dois socorristas saíram empurrando uma maca. Sobre a maca estava Marja. Pálida. Pequena demais. Inerte demais.

— MARJA! — eu gritei, a voz rasgando minha garganta.

Um policial tentou me segurar.

— Senhor, afaste-se

— Ela é minha mulher! — quase empurrei o homem. — O que aconteceu? Ela está viva? Ela está respirando?

Um dos paramédicos respondeu enquanto ajustava o soro:

— Está viva. Mas inconsciente e muito fraca. Precisamos ir agora.

— E o bebê?

— Parece estar bem. Mas precisamos ter certeza.

Eu entrei na ambulância sem pedir permissão.

— Senhor!

— Eu vou com ela — falei com firmeza.

Sentei-me ao lado da maca. Segurei a mão dela.

Estava gelada.

— Amor… — minha voz saiu quebrada. — Eu estou aqui. Eu cheguei.

Ela não me ouvia.

A ambulância arrancou. O som da sirene parecia atravessar meus ossos. Eu só conseguia olhar para a barriga dela. Para o nosso bebê.

Eu já tinha perdido uma vez. Eu não ia suportar perder de novo.

Assim que a ambulância chegou no hospital, levaram Marja direto para a emergência. As portas se fecharam na minha cara. Fiquei sozinho no corredor branco, iluminado demais, frio demais.

Minhas mãos não paravam quietas. Eu nem percebi quando comecei a tremer.

Uma enfermeira passou.

— Ela… ela está grávida — falei, como se aquilo pudesse ajudar em alguma coisa. — O bebê… por favor…

— A equipe já foi informada, senhor. Vamos fazer o possível.

Fazer o possível. Eu odeio essa frase.

Sentei numa cadeira na sala de espera. O relógio na parede parecia zombar de mim. Cada segundo era um golpe. As horas passaram. Ou talvez tenham sido minutos. Eu não sei. O tempo perdeu o sentido.

Até que um médico apareceu na porta da emergência.

— Senhor Adriano Pinheiro?

Eu me levantei tão rápido que quase tropecei.

— Sou eu.

Ele era um homem de meia-idade, olhar sério demais para ser tranquilizador.

— Poderia me acompanhar, por favor?

Aquelas palavras me gelaram por dentro. “Acompanhar”. Nunca é uma boa palavra.

Entramos numa sala pequena, com uma mesa, duas cadeiras e um silêncio pesado.

— Pode se sentar.

Eu não queria sentar. Sentar parecia aceitar que algo estava errado.

Mas eu sentei.

— Doutor… — minha voz saiu rouca. — Eles estão bem?

Ele parou, como se estivesse me olhando em câmera lenta. E naquele instante eu soube que minha vida estava prestes a mudar. De novo.

— No momento, a mãe e o bebê estão estáveis. Não houve machucados em relação a esta situação que acabou de acontecer. Mas...

— Mas... — eu estava quase enfartando.

— Mas durante os exames identificamos algo que precisa ser investigado com bastante cautela e muita urgência.

Meu coração começou a bater nos ouvidos.

— O quê?

Ele me olhou diretamente.

— A sua esposa tem um tumor no útero. E ele é grande. Com possibilidades de ser maligno.

O mundo ficou em silêncio.

Eu ouvi a frase, mas ela não fez sentido.

— Tumor! E pode ser maligno! — repeti.

— Sim. Ainda precisamos determinar o tamanho exato e a gravidade. Mas dependendo do estágio… pode comprometer a vida dela e a do bebê.

Tentei falar. Precisava saber.

— Eles podem...

Não consegui terminar a frase. O médico completou meu pensamento:

— Sendo maligno, sim. Pode ser fatal para os dois.

Meu peito apertou.

— Está sim. O médico vai vir falar com a gente.

Como se tivesse sido chamado pelo peso das palavras, o médico entrou logo depois.

— Boa noite.

Eu me levantei.

— Doutor… — Marja disse, com a voz fraca. — Meu filho… está bem?

O médico se aproximou da cama.

— Marja, você e seu bebê estão bem, por enquanto. Mas você tem um tumor no útero.

O médico foi direto. Foi frio. E eu fiquei esperando ela se desesperar. Já estava pronto para confortá-la.

Mas ela apenas fechou os olhos por um momento. Em seguida perguntou:

— Eu e o bebê vamos ficar bem?

O médico hesitou.

— Precisamos fazer alguns exames mais específicos para avaliar o tumor e entender o impacto na gestação. Vamos fazer tudo que estiver ao nosso alcance. Mas precisamos ser realistas quanto aos riscos.

Eu vi quando ela engoliu em seco. Mas ela foi forte e disse:

— Então vamos fazer os exames.

Simples assim. Eu fiquei olhando para ela, tentando entender de onde vinha aquela força. Será que ela agiria da mesma forma se soubesse da alta possibilidade de o tumor ser maligno?

Decidi ali que não falaria nada.

O médico saiu. Ficamos sozinhos. O silêncio entre nós era pesado. Ela apertou minha mão. Os olhos dela ficaram marejados.

— Eu não tenho medo de morrer por mim — ela sussurrou. — Eu tenho medo pelo nosso filho.

Isso me destruiu.

— Não fala assim — eu disse, inclinando-me mais perto. — Você não vai morrer.

Ela deu um meio sorriso.

— Vamos lutar juntos — eu falei. — E vai dar tudo certo.

Minhas palavras saíram com uma confiança que eu não tinha naquele momento, porque por dentro eu estava devastado.

Ela soltou uma pequena risada, fraca, mas real. E naquele momento eu percebi: ela também estava assustada. Porque eu via o medo nos olhos dela. Via o esforço para não desabar.

Eu inclinei a testa na mão dela. Meu coração estava partido ao meio.

— Vamos lutar juntos — eu repeti. — Até o fim.

Ela assentiu. Logo em seguida adormeceu.

Eu fiquei ali a noite inteira, sentado ao lado da cama de Marja. Segurando a mão dela e pensando se teríamos ainda algum futuro juntos.

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